De calça curta

Por: Chiachiri Filho

Nos bailes realizados pela Associação dos Empregados no Comércio de Franca, o terno preto, a gravata e a camisa branca eram vestimentas tradicionais. Certa feita, exigiram smoking como traje obrigatório. Meu pai, com muito custo, comprou-me um. Useio - o não mais do que duas vezes. De fato, cada solenidade ou cerimônia tem o seu traje apropriado. Eu me sentiria muito estranho assistindo um jogo, nas arquibancadas do Lanchão, vestido de paletó e gravata.

Em 1983, o Internacional da Estação inaugurou o seu parque aquático. O Presidente à época era o inesquecível Wilson Olien Sanches;Wilsinho, meu grande amigo. Wilsinho fez parte do famoso Grupo Novo. Em 1976, foi eleito ( juntamente com Ari Balieiro e José Marcos de Figueiredo Bertelli ) vereador à Câmara Municipal de Franca. Graças ao seu bom trabalho, foi reeleito por várias vezes.

A grande paixão de Wilsinho era o Internacional. Parte de sua vida foi dedicada ao Clube. Ele estava exultante por ocasião da inauguração da piscina. Fez uma grande festa. Convidou um mundo de gente e, além de me mandar um convite especial, insistiu na minha presença.

Sabedor de que a cerimônia referia-se à inauguração de uma piscina, vesti uma camiseta, uma bermuda e fui arrastando os pés dentro de uns chinelões. Ao chegar ao Clube, assustei-me: o povo estava todo chic, escovado, perfumado e vestido em seus ternos de gala. Com meu bermudão e chinelos, quase dei meia volta em direção à minha casa. Porém, Wilsinho, ao me ver, arrastou-me para junto dos convidados. Eu estava com vergonha. Mas o pior estava ainda por acontecer. Ao formar a mesa de honra que presidiria a solenidade, Wilsinho convidou-me para tomar assento. Eu não sabia onde pôr a cara. Não sabia se o melhor era fugir ou tomar assento à mesa. Acabei, vermelho de vergonha, indo. Sentei-me e procurei e, sem sucesso, esconder os chinelões e a bermuda.

Foi nesse dia, prezado leitor, que senti, em toda sua crueza e profundidade, o significado da expressão:

“_Pegaram-me de calças curtas!”

Chiachiri Filho,
historiador, criador, diretor por oito anos do Arquivo Municipal e membro da Academia Francana de Letras

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras