O síndico, a cigana...

Por: Luiz Cruz de Oliveira

Entro no elevador, continuo entoando o samba:

Quatro horas da manhã,
Sai de casa Zé Marmita,
Pendurado na porta do trem,
Zé Marmita vai e vem.

O elevador interrompe a descida no sexto andar, abre-se a porta, dou de cara com o Édson, síndico do edifício. Interrompo meu canto, em respeito à sua sabida preferência musical: é fã inconteste do bolero e de Waldick Soriano que, na sua avaliação, foi o melhor intérprete que o país já produziu. Aliás, todos os moradores do prédio que ainda não ficaram surdos conhecem, de tanto ouvir o síndico assoviá-lo, o refrão de uma das composições daquele cantor:

Eu sou da Bahia,
De São Salvador,
Sou mensageiro
De muita paz e de muito amor.

O síndico e eu fazemos a viagem rápida até o térreo sem muita conversa. Está visível na sua cara a contrariedade por ter-me encontrado no elevador, já que anda aborrecido comigo há quase um mês. E tudo isso foi motivado por desentendimento fútil. Explico.

O Edson andou sorumbático e macambúzio durante semanas. Então, especulando aqui e ali, principalmente sondando seus subordinados, descobri o motivo da preocupação do homem: ele temia ser cassado, despojado do cargo para que fora eleito depois de disputa acirrada.

Em gesto de solidariedade ao vizinho, tomei atitude rápida. Dirigi-me ao calçadão da Rua Marechal Deodoro, entrevistei-me com uma das ciganas que engalanam aquela via com suas roupas coloridas. Expus o problema do Édson, a olhadeira de sorte ouviu, foi rápida no gatilho, isto é, na resposta. Asseverou que ele permaneceria no cargo até o final do mandato. Alguns contratempos, algumas turbulências ele teria de enfrentar, mas isso tudo era normal e condizente com o polpudo salário da profissão. Explicou que teria de ter, permanentemente, um advogado a tiracolo, pronto para as petições, para as alegações, para os habeas corpus, para as liminares, para os alvarás. Terminou dizendo que o sortudo do Édson não se preocupasse, que a justiça é sempre justa. Às vezes ponderou o réu tem de recorrer a embargos de múltiplos tipos, porém isso não passa de percalços comuns.

Notícias tão alvissareiras levantaram, obviamente, o moral do síndico que voltou a assoviar boleros no elevador, a cochilar nas poltronas da portaria.

Mas (sempre tem um mas, um porém, um todavia), quando lhe disse que me devia dez reais, baixou a tromba, fechou a cara.

- É o dinheiro da consulta. A cigana não trabalha de graça.

Não adiantou. Ele não quis pagar.

Então, inconformado, contei para todo morador que encontrava que o Édson era caloteiro. A notícia se espalhou como fogo em rastilho de pólvora. E, só por isso, o síndico fica de cara amarrada quando me encontra.

Quem devia estar chateado era eu que perdi meu dinheiro. Se soubesse, teria olhado era a minha sorte. Mas deixa pra lá. Eu levo a vida é alegremente, cantando um sambinha.

Numa lata, Zé Marmita,
Esquenta a boia
que ainda sobrou do jantar
E Zé Marmita, barriga cheia,
Esquece a vida
Num bate-bola de meia...

Luiz Cruz de Oliveira,
professor, escritor, membro da Academia Francana de Letras

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