Meu querido, meu velho...

Por: Bruna Cjocarpmoç

Em um dia desses, sentei-me na varanda sob o sol seco de setembro, e lembrei-me de algo que talvez fosse melhor esquecer: meu septuagésimo sétimo aniversário se aproximava.

Como em um filme, cenas de minha vida começaram a rodar em minha cabeça. Coisas tão antigas, que nem eu mesmo sabia que era capaz de lembrar. Foi neste instante que, de repente, meus pensamentos pararam em minha imagem há cinqüenta anos. Eu ainda jovem, de cabelos pretos, sorria para um mundo que sequer conhecia. Quanta coragem tinha aquele rapaz, quanta vontade de vencer! Perguntei-me angustiado, por que o tempo fora tão implacável com alguém cheio de vida, repleto de sonhos?

Simplesmente porque é isto que o tempo faz de melhor: ele tem o dom de “passar”. Esta conclusão desanimadora levou-me às lágrimas. Chorei como há muito não fazia. Percebi que o tempo havia passado para mim, ou melhor, que eu tinha passado com o tempo. Neste instante, já um tanto quanto desolado, escutei minha esposa cantarolando na cozinha uma conhecida canção de Roberto Carlos, que em um momento dizia: “Sua vida cheia de histórias/ e essas rugas marcadas pelo tempo/ lembranças de antigas vitórias/ ou lágrimas choradas ao vento/ sua voz macia me acalma/ e me diz muito mais do que eu digo/ calando-me fundo na alma.../Meu querido, meu velho, meu amigo!”

Identifiquei-me com aquelas palavras. A música foi como um analgésico para as minhas angústias. Eu havia envelhecido sim, mas construindo vitórias, recebendo alegrias, amargando tristezas, colecionando amigos, e assim, vivendo dia após dia, e não somente passando pela vida. Vida! Esta é a palavra que me moveu até hoje, e assim continuará, pois, é ela, a nossa vida, que deixaremos como bem mais precioso aos que amamos.

As lágrimas deram lugar a um largo sorriso! Senti que a vida que corria nas veias daquele jovem, ainda corria nas minhas, e mesmo que um pouco cansado muitos frutos eu ainda haveria de colher. Envelhecer não é sinal de inutilidade, como muitos acreditam. É sim, amostra de maturidade, sabedoria e serenidade. Setenta e sete anos de vida é motivo de grande alegria e não de desespero. Cada dia desta história bem vivida deve ser celebrado!

Bruna Cjocarpmoç,
advogada

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