Coração de menininha

Por: Júlia Moscardini

É um gato! E a procissão ia descendo rua abaixo. Agachada, com o vestidinho branco, olha por debaixo do portão e confirma: é um gato mãe! Fica quieta menina o andor está passando. Amém, amém, amém. Não grita menina, já está chegando. E assim foi até chegar à porta da igreja.

Cachinhos como fios de sol enrolados um a um, olhinhos que carregavam o mar inteiro dentro deles e a pele alva como neve com salpicos nas bochechas. Assim era ela, a menina. Inquieta, risonha, emburrada, franzia a testa, e fazia bico e gargalhava também, mostrando os dentinhos. Vivia com os pés e mãos enlameados em meio às plantas e animais. Queria ter o zoológico em casa, mas o máximo que conseguiu foi um peixinho num saco plástico ganhado na turma de natação em festa de comemoração de fim de ano. Trinta e cinco dias foi o que durou. Não por falta de cuidado, mas por ser da natureza deles. Peixes de saco plástico não nasceram para viver muito. Anos mais tarde ganhou um galinho Galizé. Esse até que durou bem. Com vida, foi-se embora para a fazenda. A cantoria ao despertar não agradou a vizinhança. Pobre Galizé.

Chega de animais, pelo menos por enquanto. A menina então se conformou em brincar com as criaturinhas todos os sábados e feriados quando ia para a fazenda. E se esgotava correndo, pulando, rolando, subindo e descendo em árvores, caindo e chorando e correndo de novo que só mesmo o tanque com bucha e sabão de coco dava conta de desencardir dedos e unhas. Banho tomado era como se a pilha fosse retirada, chega a hora de dormir. Dorme tranquila menina e que os anjos lhe protejam!

Muitas noites foram dormidas e muitos dias foram brincados. Os cachinhos se alongaram Os olhinhos ainda eram feito o mar, mar que ora era maré cheia, ora baixa-mar. A alvura era a mesma, assim como eram os mesmos, nas bochechas, os salpicos que agora também lhe pintavam o nariz discretamente. Nunca deixou de amar os animais. Convivia agora em meio a papagaios e calopsitas, a vizinhança não reclama mais. A menina continuava a brincar, brincava de ser grande, mas grande mesmo era seu coração. Grande e confuso. Gostava muito dos bichos, mas resolveu mesmo foi cuidar de gente. Cuidava tanto de todas as gentes que às vezes esquecia-se dela mesma. Era menina, era moça, parecia mãe. Tinha um tempero especial, azedinho-doce. Só não podia errar na dose.

...

Depois de um dia exaustivo brincando com a vida, a menina dorme. Dorme como quando a vida era o pomar da fazenda velha. Dorme tranqüila menina e que os anjos lhe protejam!

Júlia Moscardini,
professora e mestranda em Estudos Literários

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