Enquanto brincamos

Por: Sônia Machiavelli

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- Hoje não é amanhã, né, vovó?

Ele interroga para imediatamente afirmar:

–Hoje não é amanhã.

Retomo, tentando alinhavar pensamentos soltos:

– Hoje é hoje.

Ele refaz:

– Hoje é sábado.

– Como você sabe?

– Não tem escola.

– O que mais, no sábado?

–Você me leva no shop. Eu como mc. Brinco de fazendinha... Eu vou no parquinho. E ando de trenzinho e pica-pau.

Eu o escuto e ao meu coração todo disparado diante daquela vozinha que continua a desfiar histórias.

– O Gat não jogou a caixinha do mcfeliz no lixo, vovó, jogou no chão; ele empurrou o copo de suco e derrubou; depois pisou na patinha do Totó; e pôs fogo no pasto lá no Goiás. A mãe dele ficou brava.

– Ah, ela teve razão. Esse Gat parece terrível. E qual o nome da mãe dele?

–É um nome beeeem bonito: Clipses.

– Que diferente. Não conheço nenhuma mãe chamada Clipsis.

– Não é Clipsis, é Clí-pe-ses. Ela tem olho azul, igual o do Gat. E cabelo cor de lalanja.

–E o pai dele, como se chama?

– Gat também. O irmão é o Lindus.

– Lindo.

– Lin- dus! O Lindus tem medo de leião, eu não tenho. Só tenho medo de riçoneronte .

–Você quis dizer leão e rinoceronte.

–É, leião e riçoneronte.

– De cavalo você gosta.

– De cavalo e de vaca. Na fazenda do vô Ronaldo e vó Nena tem.

- Você até ganhou uma vaquinha de seu pai...

– Ela tá lá na fazenda; na fazenda não... Como chama mesmo?

–Chácara.

– É, na chácara da vovó Marta. A vaquinha vai ter um bezerrinho.

– Quem vai cuidar?

– O fadenzeiro.

– Você quis dizer fazendeiro.

– É, o fadenzeiro.

– Tá. Você tem de organizar e guardar seus brinquedos, porque nossa viagem está chegando.

– A gente vai na lodoai?

–Como?

– Na lodoai!

–???

– Na roda. De vidro.

–Ah, você está falando da roda gigante, da London Eye...

– É, a londoai. Vai caber todo mundo?

– Vai sim: papai, mamãe, Juju, madrinha Maira, você e eu.

– E o Gat. E o Lindus.

–Tá bom. Vai o Gat. Vai o Lindus... Pode chamar.

–Chama você, vovó.

–Onde eu os encontro?

–Aí, do seu lado. Olha eles aí! Olha, vovó!

Faço de conta que reconheço os seres nascidos da imaginação dele e os convido. Depois penso nessa criatividade que ressalta o prazer da palavra e perfila de forma tão vívida amigos invisíveis aos olhos adultos saturados de realidade. Reflito sobre o processo implacável e irrecorrível do tempo que João começa a decifrar nos seus três anos e dois meses. E torço para que não se deixe calendarizar, continue vivendo assim, num continuum onde o que importa e tem relevância é o momento, prioridade máxima a ser usufruída em cada segundo, com prazer, intensidade e sonhos. Postergar, pra valer, só algumas delícias mui calóricas que a mãe Milena, atenta à nutricionista, reservou para único dia da semana: amanhã.

– Vó, amanhã é amanhã.

– Amanhã é domingo.

– Domingo é bom. Eu gosto de domingo. Meu pai fica em casa. A gente faz programa de meninos. Pode comer pastel na feira, só um. Pode comer chocolate, só um. E pão de queijo, só um. Pode tomar sorvete na casquinha, só um também. Hoje não é amanhã, né vó?

– Não é. Hoje é hoje, amanhã será amanhã.

Ele repete o que eu digo, e o ouvindo, de repente percebo como frases prosaicas e desgastadas, pelo milagre da voz infante reverdecem dentro de mim, com suas dimensões opostas e irreconciliáveis: tudo tão simples e ao mesmo tempo tão complexo. Nesta hora, em que me ocorre o horror às platitudes, vem em meu socorro Samuel Johnson: ” O que é óbvio nem sempre é conhecido, e o que é conhecido nem sempre está presente.”

E continuamos a brincar. Transitamos.

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PS- Entro em férias. Durante o mês de outubro o caderno Nossas Letras não circulará.

Sônia Machiavelli,
professora, jornalista, escritora

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