O abacateiro

Por: Perpétua Amorim

Dia desses, enquanto regava as plantas no quintal, um sopro de vento arrancou do meu domínio o livro da minha vida e uma brisa suave folheou os meus sentidos abrindo em tempo-passado folhas amareladas e esquecidas na memória.

No capítulo sugerido encontrei-me adolescente junto de meu pai, alheia à história que começava a escrever. Meu pai trazia nas mãos uma semente e dizia: “Isto será um grande “abacateiro”. Quero que você cuida dele”. Cuidei orgulhosamente por quase uma semana. Quando o pai chegava do trabalho, íamos os dois ver se alguma folhinha tinha nascido, mas, antes que brotasse algum sinal de vida naquela semente, meu pai pegou o caminho das estrelas e foi olhar por nós lá de cima.

Chorei! Chorei tanto que desejei também ir para as estrelas e formar com aquele que eu tanto amava uma grande constelação onde pudesse plantar árvores e colher sonhos, reguei a semente com lágrimas e agarrei-me a ela como a última lembrança real do pai.

As folhinhas nasceram e o abacateiro rumou-se em direção ao céu; dentro da minha realidade comedida, eu vivia um misto de medo e esperanças, as certezas concretas da adolescência todos os dias caíam por terra.

Um dia, a mãe deu a noticia que venderia a casa, a casa que o pai havia deixando. A nossa casa! O nosso quintal! O pé de abacate! Como é possível alguém vender o abacateiro que o pai plantou antes de morrer? Nas madrugadas, escondida em soluços fiz essa pergunta aos deuses, dezenas de vezes. Nada!!! Ninguém respondeu nada.

A casa foi vendida. O arado do tempo tratou de abrir novas clareiras, possibilitando a visão de outros horizontes, neles adentramos de pés e almas desnudos, não antes de espernear muito e brigar com a sina. Mudamos de cidade, mudamos as cores dos cabelos, o modo de falar e de pensar, construímos outras casas e dentro delas formamos as nossas próprias famílias, cobrimos de flores as impressões que se abrem de tempos em tempos na memória.

Resolvi rever a velha casa trinta anos depois. Não encontrei nada mais que lembrasse a rua tranqüila de terra batida com meninas na janela, nada que fosse meu. Contei os metros que demarcavam a esquina até onde era a minha antiga casa. Lá havia um bar e a casa totalmente desconhecida. Parei o carro, na esperança de um milagre, queria um sinal, que aquele chão e aquele céu um dia foram meus. De repente minhas retinas selecionaram uma imagem familiar. Sobre o telhado encardido da casa o meu pé de abacate acenava gritando... “Olha eu aqui.... Olha eu aqui”. Mal pude acreditar no que via, mais uma vez desabei-me em prantos, enquanto ele continuava lá, reconhecendo-me depois de tantos anos, mesmo com os meus cabelos brancos, minha pele ressecada, meus sonhos e projetos modificados, ele acenava dizendo: “vem me abraçar”. Confesso que tive vontade de bater no portão e pedir aos proprietários que me deixassem abraçar o abacateiro, depois desisti, porque essa é a minha história, não pertence a mais ninguém, poderiam até pensar que sou louca, chorando assim por um pé de abacate. Seria desgastante explicar a razão pela qual eu chorava. Não era só pela árvore. Chorava também pela menina que ali viveu, pelos sonhos demolidos e arrancados da memória, pelas orações não ouvidas nas noites frias, pela comida regrada no prato quase vazio, pela submissão a tantas ordens duvidosas. Fiquei ali chorando, perdida em pensamentos não sei por quanto tempo. Olhares desconhecidos e curiosos passavam por mim perguntando em silêncio o motivo da tantas lágrimas, um bêbado saiu do bar e cumprimentou-me sorrindo, eu também lhe sorri, estávamos ambos embriagados.

Mais uma vez a brisa suave folheou os meus sentidos abrindo em tempo - ressente. Dias atrás meu irmão presenteou-me com uma bela muda de abacate e recomendou-me: “cuida dela”. Estou cuidando, ela está forte, crescendo desesperadamente rumo às nuvens, já está bem maior que a minha fé, mesmo assim, peço a Deus todos os dias, que dê vida e saúde ao meu irmão e a mim, para que possamos sentar à sombra desse novo abacateiro e abrir o livro da vida para contar aos nossos netos tudo que vivemos e assim continuar escrevendo a nossa trajetória, até o dia em que eles serão os responsáveis pela continuação dessa história sem fim.

Perpétua Amorim,
Professora e escritora

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