Loiano

Por: Sônia Machiavelli

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A se considerar a sugestão de bota oferecida ao olhar pelo mapa da Itália, Loiano é círculo mínimo, pinguinho de tinta, sinalzinho gráfico equivalente a um ponto, como uma pinta na altura do joelho. Ali, no norte, na região chamada Emília Romana, sobre o cume do mais alto dos montes, ela continua viva, pulsante, com seu edifício mais antigo datado de 1200. Reformado recentemente, e pintado de amarelo, abriga há cem anos o Ristorante/Bar/Caffè Benvenuti.

Bem-vindos é em qualquer idioma uma palavra hospitaleira. Mas além da loira do caixa e do rapaz que se divide entre a cozinha e o serviço, não há ninguém que venha nos receber. Já se passou muito tempo desde que Afonso Machiavelli, acompanhando pais e irmãos, botou literalmente os pés na estrada sinuosa que serpenteia a montanha e rumou para Bolonha, a 26 km dali. Depois, pegou o trem para Gênova, o porto onde estava ancorado o navio que o engoliu e o manteve nas suas entranhas nauseantes da terceira classe. Assim atravessou o oceano na longa viagem onde a esperança se oferecia como principal alimento, ainda quando corpos enrolados em lençóis encardidos eram atirados ao mar. Outros Machiavelli haviam migrado antes para a América desde que o primeiro, Angelo, rumou para Nova York em 1890. Houve os que optaram pela Argentina: na lista telefônica de Buenos Aires encontrei há cinco anos duas dúzias de seus descendentes.

Passos, Nova York, Buenos Aires, destinos de chegada. Gênova, Bolonha, Loiano, pontos de partida não muito distantes de Florença, a terra do Master, ou, como diz meu filho Junior, “nosso vovô Nicolau”. O que está enterrado na Santa Croce e escreveu muito, inclusive livrinho polêmico que resiste bravamente, O Príncipe. Nele argumentou com lucidez sobre o mal das fragmentações e a necessidade de unir os reinos para fundar uma nação. A ideia demandaria quase três séculos para ser implementada.

A quem pertenceria Loiano antes da unificação? Tão perdida nas montanhas, ao lado de outras manchinhas chamadas Anconella, Barbarolo, Bibulano, La Guarda, Roncataldo, Sabbioni, Scanello, Scacoli... É bem provável que ao largo dessas aldeiazinhas meu avô tenha passado com poucas trocas de roupas e alguma comida na sua descida imigrante. Em terras brasileiras pensou muitas vezes naquelas paragens bucólicas, eu sei. Pensou nas cabras que levava a pastar no pouco de verde que colore as pedras até hoje. Pensou nas parreiras que neste outono estão com metade das folhas em chama e outra metade no chão. Pensou nos vasos ainda floridos sobre bases de ferro na maioria das janelas. Pensou nas imagens dos santos da igreja escura e silenciosa onde foi batizado. Pensou na criança que tinha sido e teria brincado no pátio fronteiriço, como estas que vejo agora observadas por suas mães, todas muito bem agasalhadas. Pensou no frio, no inverno rigoroso que posso adivinhar pois ainda é começo de outubro e os termômetros marcam 9 graus.

Onde teria morado meu avô? Nada dizia sobre ruas e casas, mas o imagino saindo de construção antiga, porta rústica de madeira, espremida entre dois blocos modernos de apartamentos habitados pelos funcionários, professores e pesquisadores do observatório Galileu Galilei, inaugurado há dez anos e orgulho dos loianesi. Observo que é moradia bem simples, parecida àquela que construiu para a família em Passos, onde morou até a sua morte, e em cuja fachada mantém-se a duras penas afixada uma placa com um nome: praça Afonso Machiavelli.

É de se supor que tivesse ido à escola que se deixa entrever entre cercas vivas e ainda hoje é única, agora grande para poucas crianças: cai em toda a Europa o índice de natalidade. Leitor voraz, assinou até o fim da vida o Corriere della Sera, que chegava à cidade com semanas de atraso. Queria manter-se atualizado, saber o que se passava na sua pátria, talvez buscasse notícias de sua pequenina Loiano. Chi lo sa?

Teria participado da colheita de trufas que acontece desde sempre na última semana de outubro, conforme vejo anunciado nas vitrines de algumas lojas? Alçado como moleque às frondes centenárias atrás da rua principal? Admirado as formações de nuvens a leste, na divisa com Monterenzio, envolvendo todo o belo prédio de um castelo que hoje é hotel onde se realizam festas de casamento?

Faço perguntas irrespondíveis. Uso a ficção para preencher lacunas. Depois encaro a realidade e vou ao apartamento de um tal Marcelo Machiavelli, ruivo e saudável, 60 anos aparentes, morador da rua Roma, a mesma do Benvenuti, onde acabamos de comer uma pizza de massa grossa e tomar vinho. Ele nos olha entre assustado e desconfiado. Não, nunca ouviu falar de nenhum Afonso Machiavelli; não se lembra de ter escutado quando menino esse nome da boca do pai ou do avô; nada sabe sobre o Brasil...

Desço as escadas do prédio bem cuidado sem qualquer traço de decepção. Não fora mesmo ali em busca de possíveis parentes. Quisera apenas conhecer os espaços físicos por onde transitara este meu avô materno, formidável exemplo de coragem, ousadia, fé no que poderia construir com seu trabalho. Queria apenas estar ali naquele outubro, com meus filhos, noras, netos; pensar que o homem é árvore que caminha, como diz ditado oriental, e os rebentos mais tenros nem sempre chegam a ver a cor e o formato das raízes de onde lhes chegou parte do DNA. Conhecer a terra onde elas estiveram fincadas por tanto tempo representou uma forma de homenagem ao passado e uma inspiração no presente para encarar itinerários diversos, previsíveis ou inusitados, no grande mapa da existência, topografia acidentada.

Reúno a família. Fazemos uma foto em grupo. Celebramos ali, na artéria principal, a vida, essa que pode ser tão intensa, se lhe permitimos fluir em toda sua plenitude.

Sônia Machiavelli,
professora, jornalista, escritora

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