Família quase Real

Por: Luiz Cruz de Oliveira

Nem sei por que ainda me espanto com o comportamento do Ronan e de seus parentes. O tempo só faz confirmar que ali, no seio daquela família, tudo é farinha do mesmo saco. Penso até que a responsabilidade por tantos desconcertos vem de longe, lá do patriarca.

De fato, a antiga crônica de São Tomás de Aquino, corroborada por relatos do corretor Edu, registra que o pai, Astrogildo, querendo entusiasmar a filharada, asseverava que o concurso de todos, o trabalho de todos, cada qual armado com uma enxada Duas Caras, encavada na extremidade da lança, aliás, no cabo de guatambu, levariam a família a conquistas de castelos, de reinos,de grandes extensões de terras, de toda a Fazenda Limeira, de vastas plantações de batata. Garantia que, junto com a riqueza, chegariam, em profusão, os títulos nobiliárquicos.

Geadas, trombas d’água, secas, oscilações de preços no mercado resultaram exércitos por demais poderosos que impuseram sucessivas derrotas aos soldados da Limeira. Então, o exército do patriarca Astrogildo foi dissolvido, os guerreiros se dispersaram, cada um buscando meio próprio de sobrevivência.

Todos mantiveram, porém, através dos anos, algo em comum: mantiveram arraigadas as atitudes fidalgas de ex-futuros nobres.

Um deles, o Esmeraldo, por exemplo, afirmou, em criança, que nunca trabalharia na vida. E como palavra de rei não volta atrás, mantém-se fiel ao juramento. Os demais não se posicionaram tão radicalmente, mas conseguiram escapar permanentemente do imposto de renda, dedicando-se ao trovadorismo alguns, outros estribando-se nos órgãos públicos. Nenhum se deixou despojar foi da mania de realeza.

Ronan e Tonho, por exemplo, se encrespam quando simplificam seus nomes.

- Seu nome é Ronan Roberto Silva?

- Não, não. Nunca lhe ensinaram a importância da preposição “DE”? Na corte francesa sempre foi traço essencial e indicativo da origem nobre. Também na corte espanhola caracterizava o tipo de brasão definidor da família real. O meu “DA” Silva, portanto, é imprescindível. Nunca mais o dispense ao pronunciar o meu nome, por favor.

E o coitado do desavisado tem de ouvir ainda meia hora de aula sobre a história da corte imperial francesa.

Não deveria me espantar mais com o comportamento dos membros da família de meu amigo, após testemunhar sucessivos desatinos seus, nesses anos de convivência. Apesar disso, vez ou outra ainda me surpreendo.

Foi o que aconteceu dia desses. O protagonista de acontecimento insólito foi o cabeleireiro Ismar, neto do patriarca. A propriedade onde engorda porco e cria galinhas (cedida gratuitamente pelos clientes Cássio e Ivo) fora assaltada. Repórter e fotógrafo de jornal quiseram ir até lá, a fim de elaborarem reportagem sobre a atual insegurança no campo. Procuraram os proprietários do imóvel que, por sua vez, transferiram ao Ismar a oportunidade de ser cicerone. Ismar ficou envaidecido, foi garimpar informações com o Cabeleireiro Dê que desfruta fama de muito sabido no meio familiar.

- Primo, meu nome é muito comum, preciso disfarçar, arranjar um nome bem importante, um nome estrangeiro pra sair no jornal. Me ajuda, Dê.

- Fala que seu nome é Osvald. É um nome inglês. É nome de homem famoso... Parece que este tal de Osvald matou um presidente não sei daonde...

- Isso, isso. Osvald... Osvald... não vou esquecer.

Semana passada, entro no salão Skorpius Cabeleireiros, dou de cara com a cara amuada do Ismar.

- Que foi? Roubaram suas galinhas outra vez?

- Não, não... foi muito pior. Olha aqui no jornal. Erraram o meu nome.

De fato, achei estranho. O retrato era o do Ismar, mas na legenda o nome era de Osvaldo Cardoso de Sá.

- Erraram o seu nome.

- Erraram... Ainda bem que o DE Sá saiu direitinho.

Não houve jeito. Espantei-me uma vez mais.

Luiz Cruz de Oliveira, professor, escritor, membro da Academia Francana de Letras

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