Um olhar, muitos olhares

Por: Maria Luiza Salomão

Seria um olhar tristonho? Ela percorre as salas da casa que não habitará mais, reconhecendo nas velhas tábuas desbotadas e marcadas pelo tempo uma riqueza: pisadas de crianças e bagunças de adolescentes; incidentes pequenos, quando um brinquedo cria um risco novo no chão ao cair, ou quando se empurra um móvel pesado, ou a vassoura bate desmesurada em um canto e fica dela o vergão. Cicatrizes do puro movimento da vida.

Seria um olhar nostálgico? Ela percorre os vazios que não carregam os hálitos das palavras, sofridas e acariciantes palavras, desaparecidas para todo o sempre. Ecos de risadas, de choros, de gritos e de declarações intensas de amor. Onde o grupo fundador da vida que não se ouve mais, o ar parado dos ausentes?

Seria um olhar solidário? Ela percorre a atmosfera que levará com ela, mas que não mais circulará na casa. Ela deixará o luxo, o lixo e carregará a essência do movimento vital, sua companhia eterna.

Seria um olhar amoroso? Ela agradece ao inefável, atrás das cortinas lilases e brancas, que não lhe esconderam os jardins; agradece aos jardins que abraçaram a casa, coloriram e perfumaram as lembranças; tudo promete desaparecer se os moradores futuros não tiverem olhos de ver. Donosa, deixa escorregar das mãos e do coração o passado, com ternura e reverência.

Seria um olhar angustiado? Ela sabe que a casa irá com ela, mas a casa a esquecerá, em farinha de tempos. Mas ela não olhará para trás, para não virar estátua de sal. Que ela leve o sal do vivido em um alforje especial: um sinal pulsante, a dor inevitável, emoções leves sublimadas, flores de sal, especiaria concentrada a temperar novas experiências.

Seria um olhar conformado? Ela, sempre inquieta, teria sossegado o pito? A chama se apagou? Caiu no buraco do mundo, e sumiu de si? Aposentou as armas? Desistiu da luta, jogou a toalha? Não, isso não. Ela não tem olhar de quem desdenha vida, carrega aquele olhar de quem se torna outra, estranha. Todos a estranham. Eu não. Eu que a olho, simples mente.

Tantos olhares cruzados, entrelaçados, renovados, maturados, a constituem...ela vai...olhares recolhidos..acompanhada, casa às costas, feito caramujo.

Maria Luiza Salomão, psicóloga, psicanalista, autora de A alegria possível (2010)

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras