Hábitos habituais

Por: Jane Mahalem do Amaral

Na maioria das vezes sei, exatamente, em que eu deveria mudar. O que geralmente não sei é como mudar, pois isso envolve quebra de hábitos estabelecidos, em algum momento da minha vida, que se solidificaram e se cristalizaram. Mudar é quebrar o já conhecido e caminhar em outra direção. A vida sempre nos pede isso, pois vivemos abrindo e fechando ciclos mas, na maioria das vezes, insistimos em começar um novo ciclo, nos utilizando tão somente de hábitos antigos. Na verdade, o grande desafio é investigar a matriz de erros da qual decorrem os nossos enganos.

A verdadeira questão é que meus hábitos moram na minha zona de conforto: acostumei-me a me levantar em determinado horário e dormir em outro. Tenho alimentos prediletos e, embora saiba que muitas vezes não são eles os melhores para minha saúde, insisto em acreditar que depois daquele dia cansado, eu mereço uma recompensa. Nossos hábitos nascem da necessidade de repetir o prazer e evitar a dor, ou o desconforto. E por aí vamos construindo faces inconscientes da nossa personalidade que terminam em uma frase que eu, definitivamente, não gosto de ouvir: “Eu sou uma pessoa que...” Quanta limitação nos impomos ao nos definir assim. Parece que sou alguém moldado em uma forma, enlatado em um molde, costurado em um modelo sem perspectivas de mudanças. “Eu sou uma pessoa que...” é a própria definição de água estagnada.

Lao-Tsé importante filósofo da China antiga, conhecido como o autor do ‘Tao Te Ching’, a obra basilar da filosofia taoista, nos diz: “Conheça-se. Saiba o que é bom. Saiba quando parar”. A questão, portanto, não é relegar o bom e o gostoso, mas compreender a impermanência deles. Se pudermos caminhar por aí, teremos que começar a fazer bem mais do que não queremos fazer e bem menos do que julgamos querer.

A verdade é que me sinto bem melhor quando, ao fazer o que eu julgava não querer ou não gostar, percebo a alegria da mudança e a quebra de velhos hábitos habituais. Persistir na dieta, continuar no trabalho com o corpo, acordar mais cedo para meditar, deixar de lado meus julgamentos baseados apenas nos meus velhos condicionamentos, sempre me trazem a fluidez de uma água corrente.

Já li em algum lugar que a felicidade consiste não em adquirir as coisas que acreditamos nos farão felizes, mas aprender a gostar das coisas que não podemos deixar de fazer. É apenas uma mudança no grau das nossas lentes.

Penso, às vezes, desiludida, que não adianta tentar porque os velhos hábitos sempre voltam, mas o que tenho aprendido é que eles não voltam: sou eu que não os abandona.

Liberta de hábitos esclerosados, é mais fácil não ter medo do novo e, quem sabe, apenas dizer: Eu sou, aqui e agora, todas as possibilidades.

Jane Mahalem, Escritora

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