Pescador de sóis

Por: Eny Miranda

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“Para aquele que, atravessando noites, colhe auroras”

Luiz Cruz de Oliveira
 

Nesta nossa efêmera existência, que, nas palavras do escritor Vladimir Nabókov, “não é mais que um curto circuito de luz entre duas eternidades de escuridão”, existem pessoas vocacionadas para o peculiar ofício de perenizar flashes; pessoas capazes de resgatar chama de cinzas e de, à simbiose de fato e ficção, ao amálgama de matéria e alma, reacender, em formas, sons ou palavras, gratas centelhas de existências individuais e fazer delas pira sempiterna de memória coletiva. A essa habilidade singularmente edificadora chamamos Arte. Artistas são, pois, os apreensores, (re)elaboradores e difusores dessa claridade fugaz, desse brilho passageiro; aqueles que sabem distinguir, recolher e expressar, no fátuo fogo da vida, lumes especiais, pequenas tochas de acender perpetuidades. Para melhor dizê-lo, recorro a uma frase lapidar do mesmo Nabókov: “Parece-me que na escala das medidas universais há um ponto em que a imaginação e o conhecimento se cruzam, um ponto em que se atinge a diminuição das coisas grandes e o aumento das coisas pequenas: é o ponto da arte.” Imaginação, conhecimento e - pedindo licença a Nabókov - eu acrescentaria, neste caso, vontade e generosidade.

Os fios da imaginação, do conhecimento, da vontade e da generosidade, nas mãos e na vida do professor e escritor Luiz Cruz de Oliveira, cruzando-se no ponto da arte, tecem luz duradoura no relâmpago da existência. Luiz Cruz é um acendedor e preservador de sóis. Cassiense de coração francano, depois de nos presentear com obras, entre outras, de resgate da história literária desta cidade, como O negro do protesto, Esboço de História da Literatura Francana e Canto da minha terra, Cruz, exímio tecelão também dos fios da relembrança, nos traz agora o livro Chico Franco, de cunho memorialista, brilhantemente prefaciado pela escritora e jornalista Sonia Machiavelli, amiga igualmente incentivadora e cultora das Letras em nossa cidade, e belamente ilustrado com imagens colhidas pela lente e a sensibilidade de Dirceu Garcia, do GCN Comunicação.

Não sou francana de nascimento, mas aprendo e apreendo muitos aspectos de uma Franca “que não mais há”, nas páginas brotadas da arte de meu amigo. Apoiado em sintaxe clara; embarcado no linguajar coloquial, na fala simples, nas expressões antiquadas de Chico Franco - protagonista das histórias contidas no livro; guiado por seus olhos e sua memória “de elefante”, Cruz vai erigindo, página a página, uma Franca de outros tempos, de outras décadas, de outro século. Uma Franca que não experimentei, mas que, aos poucos, consigo saber, conhecer, vivenciar, amar, seguindo as passadas ritmadas de um homem de terno branco, gravata escura e chapéu “de descobrir-se a cada vez que cruza com algum transeunte”; acompanhando o “toc-toc” de uma bengala que, trilhando espaços atuais, percorre antigas veredas; conhecendo pessoas, tipos marcantes da cidade, e memoráveis edificações; visitando casas comerciais em moldes de passadas décadas; seguindo a Rua da Estalagem, a Rua dos Bondes; chegando à Estação da Mogiana e atravessando a linha do trem - metafórico limite entre o presente, por onde o personagem viaja em busca de tempos idos, e o passado, onde mora; e vendo, nesses trilhos, presságio de futuro e caminho de perda: futuro que o autor se entristece de traçar; caminho que o confrange percorrer, porque, sabe, juntos levarão Chico Franco.

Vejo a locomotiva se indo, ouço a sua respiração ofegante misturando-se ao som cadenciado dos vagões seguindo nos trilhos (toc, toc... toc, toc...), centelha acesa nas páginas e agora encoberta pela fumaça que se dispersa na curva, trazendo à luz o presente e, paradoxalmente, ateando, indelével, o passado. Porque, não, na vida nem tudo se esfumaça.

Vejo o autor e seus olhos marejados, e me acorrem as palavras de Cecília Meireles, na Elegia I, de Mar absoluto e outros poemas: ‘Minha primeira lágrima caiu dentro dos teus olhos./ Tive medo de a enxugar: para não saberes que havia caído./ No dia seguinte, estavas imóvel, na tua forma definitiva,/ modelada pela noite, pelas estrelas, pelas minhas mãos.”

Chico Franco, no entanto, vive, personagem símbolo da imaginação, do conhecimento, da vontade e da generosidade entrecruzados no ponto da arte memorialística de Luiz Cruz de Oliveira; vive como emblema de seu amor às letras e à cidade de Franca; como luz por ele aprisionada neste curto circuito entre duas eternidades.


O ESCRITOR

Luiz Cruz de Oliveira.

Nasceu no dia 13 de dezembro de 1941 na mineira Cássia.

Na infância vendeu revistas na rua, leite de porta em porta; trabalhou em farmácia, parque de diversões, como engraxate, entregador, ajudante em escritório. Formou-se em Letras em 1970. Aposentou-se no Banco do Brasil. Foi professor concursado no Estado de Minas Gerais. Lecionou em cursinhos. De sua bibliografia constam 19 títulos.

1970 - Outra janela em Graciliano Ramos; 1977 - Vida Só; 1977 - Saozé Futebol Clube; 1979 Teatro; 1980 Pocilga; 1982 Sussuarões; 1984 - Deuses mutilados; 1985 - ABC da intelecção de textos; 1986 - Caminhos da esperança; 1987 - ABC do conto (coautoria com Regina Helena Bastianini e Roberto Zanin);1991 - Via Crucis; 1993- Compreensão de Textos I e II; Produção de Textos; Dissertação Argumentativa I e II (coautoria Regina Helena Bastianini e Sebastião Expedito Inácio); 1995 - Retrato em 3x4; 1995 Estrelo; 2001 Bilhetes; 2002 Vivalei; 2003 Trilhas; 2004 - O negro do protesto; 2005 - Esboço de História da Literatura Francana;2006 - Os Anônimos; 2006 - Por enquanto canto; 2009 - Córrego das Pedras; 2010 - Cantos e Desencantos; 2012 - Lições Básicas de Português (coautoria Regina Helena Bastianini e Marco Antônio Soares Silveira);2013 - Chico Franco.

Eny Miranda, médica, poeta e cronista

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