Giverny: um lugar para o olhar

Por: Sônia Machiavelli

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A profusão de touceiras, os sutis perfumes, o silêncio leve, a logística sugestiva, o lago juncado por folhas e a ponte japonesa me levam a estacar o passo, acurar os ouvidos, controlar a respiração, dar graças por enxergar. Amarelos, roxos, róseos, azuis e bordôs em dégradés, brancos de vários matizes salpicando o verde, o espelho d’água a refletir parte do arco-íris vegetal : os jardins de Monet em Giverny fascinam. Pelas cores que são todas; pelas formas como se estruturam as plantas para o alto, para baixo, para os lados; por toda aquela quantidade de espécies convivendo em explosão impactante.

Tudo arrebata a alma neste espaço de sonho para onde Claude Monet se mudou em 1883, aos 43 anos, ali vivendo outro tanto. Manet, Coubert, Renoir, Sisley, Pissarro frequentaram a casa rosa de janelas verdes e os três últimos pintaram o pintor pintando em seu jardim ao longo de anos. O resultado se pode ver nas paredes das salas e corredores, em meio a centenas de gravuras japonesas colecionadas durante toda a vida por um dos criadores do Impressionismo.

Mestre deste movimento que mudou a cena estética no Ocidente, Monet captava o efeito da luz em rápidas pinceladas que solicitavam ao observador alguma distância da tela para apreender o contexto. Foi por causa da nova técnica, imortalizada a partir do quadro “Impressão, Sol Nascente”, que Monet se mudou para Giverny. Queria pintar ao ar livre e acabou por criar um jardim que pela singularidade revelou a marca do gênio. Por 43 anos Monet dedicou-se ao seu espaço deslumbrante, onde pintou, no outono de 1899, a famosa série “Nenúfares”, que conquistou definitivamente o público.

Mas bem poucos dos que o aplaudiam sabiam que antes de pegar seu barco-estúdio, Monet se certificava de que o empregado havia cumprido estritamente suas ordens, espanando com a máxima delicadeza as flores imaculadas que alguma fuligem, espalhada no ar pelo trem que corta a Normandia, houvesse contaminado. Este é um detalhe importante para entender a relação entre jardim e pintura estabelecida pelo artista. Mais que tema, Giverny representou um recorte adaptado a uma maneira específica de pintar, tornou-se uma natureza morta vivaz. Monet concebeu os maciços de flores, coordenou as cores para que houvesse sempre as frias próximas dasquentes, elegeu as efêmeras que tinham de ser replantadas a cada três semanas, desenhou o lago e depois a ponte, ampliou a casa. Principalmente, ao levar para as telas ângulos deste ambiente, foi conferindo à sua pintura novos aspectos, já muito diferenciados daqueles que o haviam tornado inovador. As pinceladas miúdas do passado, que exigiam o punho, foram paulatinamente substituídas por outras cada vez mais largas, que convidavam o braço e, na fase final, quando os olhos foram danificados pela catarata, o corpo inteiro. Giverny foi lugar de mudança também interna para Monet, que deixou de registrar apenas impressões ópticas para evocar lembranças, sentimentos e sensações que alçaram o plano onírico. Sob este aspecto, são exemplares os nenúfares.

Em 1926, quando morreu, ali mesmo em Giverny, na pequena cama que vemos no quarto banhado pelo sol apenas tépido de outubro, o pintor já era reverenciado em toda a Europa. Mas como um jardim não vive da fama de seu criador, e sim de cuidados diários, o de Monet logo feneceu, desaparecendo por meio século. Foi só em 1976 que a Fundação Claude Monet empreendeu a restauração, convidando para dirigir os trabalhos Gilbert Vahé. Quando chegou, ele encontrou a terra arrasada e a primeira coisa que fez foi viajar à Itália para conhecer o célebre Jardim de Moreno em Bordighera, fixado em tela por Monet que o considerava inspirador. Foi assim, estudando e sentindo Monet, que Vahé iniciou seu trabalho, à frente de dez jardineiros. O desafio que se impôs foi gigantesco: criar um lugar que se assemelhasse à paleta de um pintor e fosse mudando segundo as estações.

Trinta e sete anos depois, Vahé pode se considerar vitorioso. Pois se em abril, quando se abrem para o público, os jardins exibem plantas floridas de trinta centímetros, no começo de novembro, quando se fecham, ainda mantêm viçosas touceiras coloridas de dois metros. O apaixonado Vahé, que acaba de se aposentar, detém os segredos para manter exuberantes les 56 massifs, que são os conjuntos de plantas que se unem para formar o todo. Ele continuará como consultor, pois os jardins de Giverny não são como os de Versailles, cujos desenhos repousam nos arquivos desde que Le Nôtre os concebeu. Lugar mutante, exige mais que jardineiros, pede pintores. Não é com surpresa pois que se descobre isso a respeito de Vahé: antes de assumir a incumbência de resgatar os jardins, ele pintava telas. Diz que vai retomá-las agora, sonho antigo que foi substituído pelo outro, plenamente realizado. Quem visita Giverny, o agradece.

Sônia Machiavelli, professora, jornalista, escritora

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