Os entrantes

Por: Chiachiri Filho

A descoberta do ouro nos ribeirões mineiros vai provocar, dentre outras coisas, a interiorização do povoamento da colônia que, até então, localizava-se nas regiões litorâneas do Brasil. Para se encontrar o ouro de aluvião não eram necessários grandes capitais e investimentos. Bastavam o trabalho, a audácia, o espírito de aventura e o desejo de enriquecimento. Portanto, um grande fluxo migratório formou-se a partir do continente português e, principalmente, das ilhas lusitanas em direção aos sertões mineiros. Ao se aproximar a segunda metade do século XVIII, a Capitania das Minas Gerais era a mais rica e populosa da Colônia.

O ouro fundou cidades, promoveu a cultura e provocou as insurreições. Nos finais do século XVIII, as minas de metais e pedras preciosas começaram a dar sinais de esgotamento ao mesmo tempo em que o fisco real atuava com mais voracidade.

A grande população concentrada em Minas Gerais desloca-se em direção ao oeste. Homens partem de Congonhas do Campo, Ouro Preto, Curral del Rei, Sabará, Mariana, São João del Rei, São José do Rio das Mortes, Paracatu e de tantas outras Vilas e Freguesias com o objetivo de encontrarem novas terras onde, de agregados, passariam a proprietários. São os entrantes mineiros marchando para oeste e procurando terras de cultura e campos de criar. Desses entrantes, um grupo estaciona no Julgado do Desemboque e daí uns vão povoar o Sertão da Farinha Podre ( atual triângulo Mineiro ) e outros penetram o Belo Sertão da Estrada dos Goiases, território pertencente à Capitania de São Paulo.

Na Capitania de São Paulo, o Governador e Capitão General, Antônio José da Franca e Horta, facilita a vida dos entrantes garantindo-lhes a posse das terras devolutas, concedendo-lhes cargos e funções político-administrativas e prometendo que seus filhos não seriam recrutados para servirem o exército nas guerras do sul da Colônia. Em contra partida, os entrantes mineiros mantém o território entre os rios Pardo e Grande dentro dos domínios da Capitania de São Paulo.

Os entrantes das Minas Gerais transformaram o Belo Sertão em fazendas de plantação de mantimentos e criação de gado vacum. São eles que instalarão os primeiros arraiais que servirão de sede das Freguesias e das Vilas.

A Estrada dos Goiases continuará tendo sua importância para o desenvolvimento econômico da região, pois será através dela que circularão as mercadorias, os produtos da terra em direção aos outros centros consumidores da Capitania. Em troca, recebiam o sal carregado pelos carros-de-bois, sal que abastecia os rebanhos do sul de Minas, Goiás e Mato Grosso.

Ao contrário dos pousos, os arraiais eram construídos em lugares altos e livres de imundicie. Foi assim que nasceu o arraial da Franca em dezembro de 1805 com a presença do Capitão de Ordenanças Hipólito Antônio Pinheiro , do Reverendo Joaquim Martins Rodrigues ( primeiro Vigário da Freguesia da Franca ) e mais os chamados homens bons e outras pessoas do povo.

Em 28 de novembro de 1824, o arraial torna-se sede da Vila Franca do Imperador que, desta forma, desvincula-se da Vila de São José de Moji Mirim.Com a criação da Câmara da Vila, a eleição dos vereadores e juízes, a nomeação dos funcionários públicos, Franca passa a conduzir os seus próprios destinos.

Chiachiri Filho, historiador, criador, diretor por oito anos do Arquivo Municipal e membro da Academia Francana de Letras

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