Reencontro

Por: Eny Miranda

Sim, era ela,
Ao meu lado, na janela,
Ambas mirando infinitos:
Seus mesmos cabelos nevados,
Suas mãos de linhas
Inscritas em tempos
Novos, de tão antigos,
De novas regas
Em velhos plantios.
E a ela pergunto:
Mamãe, é mesmo você?
Não é sonho?
Não é sono?
(O sono sem tempo
De todos os tempos?)
Dormi? Morri?
Já nem sei...
Sei que a vejo,
Que revejo minha mãe.
E afago seus cabelos
Incorpóreos,
Toco seu rosto intemporal,
Deito meus olhos e esperas
Em seu delicado regaço:
Ah, mamãe, sim,
É você!
(E sinto tanto a sua falta...)
Como veio?
(Veio ou me fui também eu?
Tudo parece tão instável,
Intangível, improvável...)
Abre as mãos
Como em oferta
(Ou pedido? Ou dúvida mesma
- Enigma que nasce agora
E depois se esvai sozinho,
E se renova, tempo afora?)
Então me sorri de leve,
Incógnita:
Lábios cerrados, silentes,
Olhos serenos (melancólicos?)
Regados por uma fonte
(Líquida? Gasosa?)
Brotada lá, muito longe...
Em terrenos abstratos
Que manam altos mistérios.
Ah, mãe, o que você me diz?
Pra onde foi? Como está?
É feliz?
Como é sua nova cidade?
E sinto-a responder
Com uma voz que não se escuta
- Miragem que envolve o canto
Dos reencontros oníricos -
E a mim me soa tão clara:
- Amor e saudade,
Apenas, amor e saudade,
Que aqui se plantam
E lá se colhem,
Nos campos da eternidade.

Eny Miranda, médica, poeta e cronista

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