O incrível João de Minas

Por: Caio Porfirio

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Na juventude, ainda residindo em Fortaleza, leitor inveterado, caiu-se às mãos, de empréstimo, um livro impactante, desnorteante, de histórias meio fantásticas, mas sem fugirem de uma realidade pulsante, que jamais vira em outros escritores. Em São Paulo, para onde me transferi, procurei descobrir quem seria esse escritor. O livro se chamava Mulheres e Monstros. Fui à Biblioteca Municipal e lá encontrei mais dois livros do autor: Jantando um Defunto e Farras com o Demônio. Mesmo impacto. No primeiro, o autor malha a Coluna Prestes, que varava os sertões do País. Uma malhação bárbara e fantasiosa, mas que empolgava. No segundo, envolvências mirabolantes e meio mágicas, calcadas numa realidade doída.

A leitura desse autor me fascinava. Estilo palpitante, elegante, valendo-se sempre de um vocabulário rico, surpreendente e vívido, fugindo, porém, do precioso. Estilo personalíssimo e notável. E procurei me informar mais e mais sobre esse escritor do final da década de vinte e anos trinta do século que passou. Assinava-se João de Minas.

De tanto vasculhar, particularmente quando entrei para a União Brasileira de Escritores e assumi a secretaria administrativa da entidade, juntei alguns dados sobre o tal escritor desconhecido e publiquei, no suplemento do Diário Oficial, um artigo sobre ele, de igual título: O Incrível João de Minas. Fiquei sabendo que se chamava Ariosto Palombo, nascido em Ouro Preto. Tornara-se jornalista e viveu uma vida meio aventureira.

Assinava João de Minas, seguindo o hábito de outros de renome das nossas letras: João do Rio (escritor Paulo Barreto, a quem admirava) e João do Norte (escritor e historiador Gustavo Barroso, do Ceará). Então, sendo mineiro, inteligente, imaginoso e inventivo, teria de ser, como foi, o João de Minas.

O escritor Bernardo Élis, de Goiás, que o conheceu, contou-me passagens incríveis de João de Minas. Um irrequieto indomável, cheio de planos mirabolantes, ao lado de um escritor notável. Dizia-me que João de Minas foi o primeiro escritor brasileiro a trazer ao vivo, com um impacto pulsante e poético, a literatura fantástica. Nisto eu creio. Guardo na memória passagens de seus livros que se perpetuaram na minha lembrança e sensibilidade. Todo o livro A Mulher Carioca aos 22 anos é um desatar de amarras da moral rígida da época, sem descambar para a chulice.

Subia na vida e desaparecia. Anunciava livros maravilhosos, que nunca vieram a público. Quando elogiava alguém, punha-o no céu; quando atacava, arrasava-o por inteiro.

Resolveu abandonar as letras e fundou uma igreja, com sede em São Paulo, denominada Igreja Comunista Cristã Científica. Escreveu uma bíblia, nomeou bispos, angariou adeptos. Tentou, como papa da sua igreja, entrar para a União Brasileira de Escritores, pouco depois da criação desta, em 1958. Contou-me o escritor Antônio D’ Elia, um dos diretores da entidade, que o presidente Paulo Duarte vetou a proposta, por achá-lo inconsequente e avoado.

Fundou outras entidades, inclusive a Academia de Ciências Ocultas, e se denominava Mahatma Patiala.

Tudo isso ia se somando na via de João de Minas. A de escritor ficando para traz. Escrevia de preferência à mão. Os originais de A Mulher Carioca aos 22 Anos foram escritos em tiras de papel, a lápis, formando um calhamaço. Leu para Veiga Miranda tudo aquilo, em meados de 1932, na cidade de Franca, como informa na apresentação do livro. O que ele fazia em Franca, nas suas andanças, não consegui descobrir. Veiga Miranda foi taxativo e o próprio João de Minas acrescenta isso: ‘Gostei muito. Mas você ou é um precursor, que a crítica literária mais tarde elevará às culminâncias, ou um louco banal, um tarado.’

Assim era o João de Minas, coberto de elogios da crítica da época, muito especialmente de Humberto de Campos, que o exaltava.

Vi-o, única vez, na televisão, há muitos anos, dando uma entrevista sobre um mundo de assuntos.

Aderbal Freire-Filho, no posfácio de A Mulher Carioca aos 22 Anos, traça-lhe um perfil minucioso e bem elaborado.

Foi desaparecendo, desaparecendo, e apagou de vez, recolhido na cidade de Boituva, próxima à capital paulista, onde faleceuem 1984 e lá foi sepultado.

Ao longo da sua vida plena de surpresas casou-se e deixou descendentes.

O escritor Rui Ribeiro muito fez para desvendar-lhe os ‘mistérios’ e trazer ao vivo sua obra. Encontrou muitas barreiras, que as lacunas persistem. E Leandro Almeida apresentou tese de Mestrado e Doutorado na USP ( Universidade de São Paulo) sobre a obra de João de Minas.

Vamos ver se será o renascimento do seu nome e sua obra. E de tantos outros escritores de valor que continuam esquecidos.

Aguardemos.


O ESCRITOR

João de Minas

Foi um dos pseudônimos de Ariosto de Colona Morosini Palombo. Houve outro, no final da vida, Mahatma Patiala. Nascido em Ouro Preto em 1896, formou-se advogado mas foi como jornalista que ganhou fama. Escreveu para jornais e revistas importantes, desde 1913. No início dos anos 20, ao lado do ferino crítico literário Agripino Grieco, assinou textos no semanário carioca Hoje. Depois foi para Uberaba onde advogou e escreveu para o Lavoura e Comércio. Em 1927 passou a trabalhar em O Paiz, no Rio de Janeiro, cidade para a qual se transfere três anos depois. Começa a publicar contos e romances: Jantando um Defunto, Farras com o Demônio, Mulheres e Monstros, Sangue de Ilusões. Por razões políticas, em 1930 exila-se na Argentina. De volta em 1932,estabelece-se em Franca; depois em Araraquara. No ano seguinte vai para São Paulo. Passa a se dedicar inteiramente à literatura. Resgata andanças pelos sertões de Mato Grosso e Goiás nos livros Pelas Terras Perdidas e Horrores e Mistérios nos Sertões Desconhecidos, ambos de 1934. Seguem-se: A Datilógrafa Loira, A Mulher Carioca aos 22 anos, Uma Mulher... Mulher, Fêmeas e Santas, A Prostituta do Céu. Em 1936 experimenta o gênero policial e publica Nos Misteriosos Subterrâneos de São Paulo. No ano seguinte funda seita baseada em várias crenças. É quando escolhe para si o pseudônimo indiano. Morre em Boituva em 1984. (SM)


Livro

Título: A Mulher Carioca aos 22 Anos
Autor: João de Minas
Editora: Dantes
Ano: 1999


Caio Porfirio, escritor, crítico literário, secretário administrativo da União Brasileira de Escritores, ganhador do Prêmio Jabuti

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