Saint-Michel, a pirâmide do mar

Por: Sônia Machiavelli

232951

Inspirado na novela Grandes e Inestimáveis Crônicas do Gigante Gargantua, escrita por Rabelais, um anônimo criou no século XVI o seguinte relato sobre o Mont Saint-Michel. Tendo chegado à encosta de certa montanha, e reunido ossos de um casal de baleias, o mago Merlin deu vida a Grandgosier e Galemelle. Deles nasceu um bebê gigante, Gargantua. Quando o filho completou sete anos, os pais partiram para apresentá-lo à Corte do Rei Artur. Levaram tudo o que seria necessário para a longa travessia, incluindo enormes rochedos sobre a cabeça a fim de exibirem ao soberano sua força. Adentraram o mar na altura da Mancha. Em certo momento, Gargantua tirou as botas e as sacudiu, fazendo cair no oceano os pedregulhos que o incomodavam. Dava assim origem a algumas ilhotas. Pouco depois Galemelle, num descuido, deixou escapar sua pedra, sucedendo o mesmo a Grandgosier, que seguia à frente. Frustrados, os dois adoeceram e morreram. Gargantua sepultou cada um sob sua rocha: a primeira seria batizada Tombelaine; a segunda, Saint-Michel.

Todas as histórias, escritas e orais, reais ou mitológicas, que buscam explicar as origens deste lugar que é a terceira atração turística mais visitada da França, perdendo apenas para a Torre Eiffell e Versailles, destacam força, grandeza, imponência, mistério. Principalmente ressaltam o gigantismo do trabalho que ergueu o complexo constituído por construções de pedras assentadas num monte de granito ancorado no vasto estuário que banha duas antigas províncias rivais, Bretanha e Normandia. A esta pertencem os montes citados, Tombelaine, reserva ambiental, e Saint-Michel, ao qual Victor Hugo, arrebatado pela magnitude, chamou “pirâmide do mar, Queóps do Ocidente.”

Divisado à distância na baía única no mundo, o Saint-Michel tem sua fisionomia alterada em períodos de luas cheia e nova, pela manhã e à noite, quando sobre suas bases avançam as “marés vivas”, incontrolável força da natureza. Em pouco menos de uma hora o mar inunda as areias em volta das muralhas, esconde o antigo dique, hoje via asfaltada, isola o monte. As ondas evoluem rapidamente e chegam a 12,6 metros de altura. É um espetáculo que na língua francesa recebe o nome de mascaret, fenômeno que Theophile Gautier comparou plasticamente a um cavalo a galope.

Não vimos o mascaret, pois no sete de outubro passado a maré estava “morta”, como dizem por lá. Em compensação, subimos os 932 degraus que levam à abadia incrustada no topo do monte. Percorremos, no meio da procissão de turistas, a via principal repleta de pequenos restaurantes, lojas e hotéis. Estivemos atentos às fachadas de pedra bruta, portas pesadas, janelas estreitas, muito ferro e madeira. Ingressamos em espaços de silêncio onde a beleza e solidez da arquitetura faziam pensar em eternidade. Chegamos ao cume e olhando para cima ainda descortinamos, imponente sobre os jardins suspensos ao redor do refeitório dos monges, a esguia estátua de metal dourado do anjo Miguel. Naquela altitude a vista que se tem do mar é deslumbrante, faz esquecer o cansaço, pois para chegar ali é necessário ter fôlego. Apenas 40% dos turistas que passam pela pia de pedra da entrada, que oferecia água aos pés dos antigos peregrinos, o conseguem. A maioria desiste no meio do caminho.

Os degraus são na maioria íngremes, de larguras irregulares, divididos em lances, de forma que ao atingirmos o que consideramos o destino final, outros surgem à nossa frente, frios e exigentes. Em dois momentos fui tentada a parar, mas segui na aventura, resvalando por estilos romano e gótico, impressionada com o empenho e o esforço na realização de um ideal. Lá do alto, depois de atravessar salas, salões, refeitórios, corredores, claustros, espaços que ao longo de 1300 anos (celebrados em 2008) foram ocupados por religiosos mas também por guerreiros (na Guerra dos Cem Anos) e prisioneiros (na Revolução de 1789), pude sentir a energia humana quando tem a orientá-la um projeto de fé. Percorrer aquele dédalo que começou a ser erguido a duras penas desde que o bispo Santo Oberto consagrou uma capela a São Miguel Arcanjo, no longínquo 708, foi experiência inigualável. Ensejou-me pensar nas possibilidades que se abrem aos que ousam encarar os mais contundentes empecilhos com férrea vontade de os vencer.

Observado à distância o bloco rígido de forma piramidal, para o qual nos volvemos em despedida, soam discutíveis as palavras de James Joyce no Ulisses: “A areia é desencorajadora/ Nela nada brota/ e tudo se apaga”. Saint-Michel, pesado como chumbo, é prova em contrário. Olhá-lo num final de tarde de outono, recortado contra o crepúsculo dourado, representou para mim preservá-lo indelével na memória, de forma que ao resgatá-lo estarei sempre reverenciando esta obra extraordinária produzida pelo engenho humano.

Sônia Machiavelli, professora, jornalista, escritora

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras