Os imigrantes

Por: Chiachiri Filho

Durante quase todo o século XIX, o núcleo urbano de Franca não foi além de um arraial sertanejo, boca de sertão. A população concentrava-se em torno da Igreja localizada onde hoje é a fonte luminosa, isto é, na Praça Nossa Senhora da Conceição. Pouco mais de duas centenas de moradores espalhavam-se pelas ruas Direita (Monsenhor Rosa), das Flores (Major Claudiano), do Comércio, do Ribeirão, do Sapo, das Formigas. Além da Praça Nossa Senhora da Conceição, havia a da Aclamação (Barão da Franca) e o Largo das Magnólias (Nove de Julho).

Nos finais do referido século, o cenário passa a ser outro. As pastagens para o gado vacum transformam-se em lavouras de café, os carros-de-bois vão sendo substituídos pelos trens da Cia. Mojiana de Estradas de Ferro e o velho arraial torna-se um centro urbano de importância.

Com a abolição da escravatura (1888), importa-se a mão-de-obra estrangeira para os trabalhos na lavoura cafeeira. Os primeiros a chegarem em quantidade foram os imigrantes italianos. Pouco mais tarde vieram os espanhóis, os portugueses, os árabes, os judeus etc. A grande maioria veio para trabalhar na roça. Alguns, como árabes e judeus, já se fixaram na cidade. Percebendo as dificuldades da lida no campo e os baixos rendimentos auferidos, muitos acabaram vindo para a cidade onde se estabeleceram com suas oficinas, seus artesanatos, sua prestação de serviços, suas fábricas. Nos últimos anos do século XIX e nos primeiros do século XX, a cidade cresceu e se equipou com os melhoramentos próprios de um centro urbano. Novas ruas foram abertas, outras pavimentadas com paralelepípedos. A Cia. Carril Francana fazia, através dos seus bondes, o transporte de pessoas e mercadorias da estação da Mojiana até o centro da cidade. Fundaram-se colégios, liceus, jornais, teatros. Instalaram-se fábricas de fósforos, chapéus, produtos alimentícios ( macarrão, lasanha ), bebidas ( cerveja, gasosas, licores ). Abriram-se oficinas de funilaria, marcenaria, mecânica.

A gare da Cia. Mojiana foi o centro irradiador do progresso. Nasceu ali o bairro da Estação com seus bares, restaurantes, hotéis, lojas e armazéns. Era um bairro de imigrantes. Pela Rua Jorge Tibiriçá (atual Voluntários da Franca) desceu o progresso ao encontro do velho arraial. Ao longo da via, multiplicaram-se os estabelecimentos comerciais e as fábricas de calçados sob a direção dos imigrantes de além mar.

Se o brasileiro Carlos Pacheco de Macedo deu início à indústria de calçados, a sua continuidade e projeção ficou a cargo dos imigrantes e seus descendentes como, por exemplo, os Lopes de Melo, os Sábio de Melo, os Bettarello, os Palermo, os Spessoto e tantos outros.

A participação dos imigrantes não se fez sentir somente nas lavouras de café, mas, principalmente, no desenvolvimento da cidade que, de sua função de apoio e subsídio à economia rural, passou a ser o mais importante centro da atividade econômica , social e cultural do Município.

Chiachiri Filho, historiador, criador, diretor por oito anos do Arquivo Municipal e membro da Academia Francana de Letras

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras