Não plantei, mas colhi

Por: Farisa Moherdaui

Por muito tempo esteve ali fincado no chão do meu quintal, aquele toquinho que eu não plantei. Não crescia e quase esquecido, mas um dia, surpresa! Do solitário caule foram surgindo folhas pequeninas, depois outras e mais outras que eu reconheci ser caule de uma parreirinha querendo viver.

Um estaleiro caprichado mandei fazer e o pé de uvas foi desabrochando devagar mas as folhas e frutas muito acanhadas e só os passarinhos a esparramar folhas e ovinhos pelo chão, mas não desanimei e fui cuidando com carinho.

Para a primeira poda, busquei a pessoa certa, um podador especializado no trabalho que exige técnica e cuidados; as ramas cortadas na medida certa, com muita paciência e sabedoria, segundo o podador. Os frutos por mais um tempo continuaram escassos, mas as ramas e folhas cobriram o estaleiro.

Em época da segunda poda, por algum motivo o especialista não foi encontrado e o serviço foi entregue a um jardineiro que parecia não entender sobre poda de parreiras e eu ao acaso fui tentando ajudar:

- Corta aqui, amarra em cima, puxa a rama para baixo, mede direito, assim, assim.

Persistente fui cuidando da videira com adubo, água, muita água e açúcar na base do tronco. Um tempinho depois, muitas folhas verdinhas, macias e os frutos doces como o mel.

O malfuf, prato típico da culinária árabe, feito com a folha da parreira já pode ser encontrado por algumas vezes bem quentinho na panela da minha cozinha e as uvas roxinhas, sanzonadas, delícia de sobremesa.

Eu, a que jamais cortara um só espinho de roseira, como podadeira de parreira, uma revelação, um sucesso!

Farisa Moherdaui, professora

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