A espera, à espera

Por: Maria Luiza Salomão

Ela me esperava, desde as sete horas...e eu cheguei minutos depois da oito, horário combinado. Eu me senti esperada, coisa rara hoje em dia. Ela veio lenta até o portão, sorrindo... Coque torcido na nuca, cabelo-paina contrastando com o rosto vincado de sol; perfumada de talco; vestido longo, branco bordado em branco, sandálias azuis baixas em fita. Sua figura, apesar da idade, mantém a forma feminina. O que me prende a atenção são os olhinhos azuis esverdeados, pequenos, estrelados; a coluna ereta, que mantém firme para não encolher mais; e o riso...

Sigo seus passos, como em câmera lenta; vejo uma fonte no jardim cuidado, a estátua de mulher, vaso no ombro que transborda pingos - gota a gota - da água na bacia. Barulhinho cadenciado, no ritmo de nossos passos silentes, plim-plim, plim...plim...

Sigo o rastro de seu perfume, e respiro o seu silêncio, sem pressa. A espera tem muitos rostos. Quanto maior o silêncio, mais ricos os desenhos das palavras. Não sei se meu atraso a leva a me contar de suas esperas. Quando criança, esperar era assustador: sua mãe que não vinha, ou quando pedia algo e ela demorava a lhe atender - sentia que seria devorada por uma bruxa. Outras vezes a espera era uma festa, na contagem regressiva para as férias da escola. Outra, ímpar, foi o instante em suspensão feérica - quando a orquestra e o público se preparam para o movimento primeiro do maestro de silêncio concentrado, quando esperava o maestro acaso favorecer o casual causado, nunca marcado, encontro com o amor juvenil, na esquina da sorveteria do Afonso. Outro tipo de espera, diferente, misturava desejo e medo, promessa de nova vida, desconhecida, quando deixou a casa dos pais.

De todas as esperas, aquela que acena com a liberdade, na saída da casa dos pais, ela sentiu como a mais longa e difícil, por ter rosto de esfinge.

Saber esperar é a condição inicial de liberdade, ela fala distraidamente, sem atinar ao que me provoca - um estado de lenta expectativa de transformação. Percebo que ando, sem ter sabido antes, à espera de...

Despeço-me dela, hora e meia depois...a cabeça e o coração funcionando em câmera lenta, entre sorrisos e acenos.

Toda vez que ouço suas histórias, alguma coisa canta e decanta, em um crisol. Meu olhar é de espera, agora, ele caminha gota-a-gota em direção a novo futuro: plim-plim, plim-plim-plim, plim...plim...

Maria Luiza Salomão, psicóloga, psicanalista, autora de A alegria possível (2010)

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