Ao correr da pena

Por: Everton de Paula

É claro, os jovens não vão entender o título. Expliquemos: as primeiras canetas de que se tem notícia eram penas arrancadas de aves. Escrevia-se molhando o bico da pena na tinta, transportando-a após ao papel, até quanto durasse (a tinta, é lógico). Ao correr da pena teria o significado, então, de “durante a escrita”. Atualizando o título, poderíamos dizer “ao correr da caneta”, “ao correr da esferográfica”... Ah, lembrei-me do computador: “ao correr das teclas”. Aí, algum sem graça diria (teclas de piano? O cara está tocando piano?)... É quando acredito em quem disse que quando o autor tem de explicar a obra ao leitor, um dos dois é burro.

Vamos ao texto de hoje, deixando os dedos correrem sobre as teclas.

A tirania do telefone
Com o telefone acontece algo que só um psicólogo profissional poderá explicar. Recebe-se uma carta e tanto se resolve abri-la como deixá-la fechada, à vontade: a carta espera pela vontade da pessoa. O mesmo se dá com os e-mails. Se uma visita bate à porta, é ainda a pessoa que tem a iniciativa: pode ir primeiro pentear-se, vestir-se, calçar-se, pode abrir a porta com vagar, ou talvez nem mesmo abri-la. Mas basta que toque o telefone ou celular e o demônio fica solto. No verão ou no inverno, da cama ou da sala, do banheiro ou do quintal saímos às carreiras em direção ao instrumento... E nada mais importante senão alcançá-lo. E depois? É um engano, ou uma seguradora tentando lhe empurrar algumas apólices, ou ainda o infalível pedido de ajuda de Natal para a casa de assistência social. Ou um camarada perguntando: “E aí, como vão as coisas?”

A supremacia do indivíduo
Neste momento preciso há milhões de hindus morrendo de fome. No correr do ano, a maioria desses hindus terá morrido. Entretanto, para nós, esse milhão não passa de estatística.

Às vezes ouvimos alguém falar nos seis milhões de judeus que morreram nas mãos dos nazistas, e, talvez por perceber que não reagimos convenientemente, a pessoa que fala a respeito se mostra indignada e retórica.

Diariamente ouvimos e vemos pela TV o massacre de civis na guerra interna da Síria, os mortos pelos desabamentos e catástrofes naturais. Ficamos impassíveis e, não raro, mudamos de canal.

Mas a morte do menino Joaquim, aqui em Ribeirão Preto, comoveu uma cidade inteira. A morte da menina Nardoni chocou a nação. Nilton Santos morreu esta semana e o futebol brasileiro enlutou-se. E seguem muitos, muitos outros exemplos análogos da morte de um só...

A grande tristeza de nossa história é que a imaginação mortal não pode conceber o mesmo pesar pelas vítimas de um terremoto que por uma meninazinha. E isso porque a compaixão e a solidariedade só pertencem a indivíduos. Não é pela volição que se pode transmitir a compaixão ao grupo, esta é que é a verdade desesperadora.

Por mais amarga que seja essa verdade, não traímos com ela as nossas tradições. Transformamos o indivíduo em um ser supremo, porque é essa a única esperança de despertar compaixão e solidariedade. Em questão de morte, temos colocado alto valor no indivíduo.

A melhor conversação
Um dos nossos problemas, a meu ver, é que não discutimos arte ou política com naturalidade. Procuramos parecer inteligentes demais, ou sábios demais, em vez de humanos.

A melhor conversa que já tive sobre Euclides da Cunha foi com um professor amigo que estava exatamente preparando sua palestra sobre o autor de Os Sertões. Era um homem que tinha uma observação profunda e sincera para fazer o que quer que fosse. Disse ele: “O que mais admiro em Euclides é que ele foi um sujeito que disse que denunciaria um crime da nacionalidade, ao tratar a guerra de Canudos, na Bahia, no final do século dezenove. E quando ele terminou de escrever Os Sertões, ele havia denunciado um crime.” Simples assim. E profundamente sincero.

O desastre de meu regime alimentar
Se o meu regime não tivesse dado tão bom resultado, talvez eu estivesse hoje em condições físicas muito melhores.

Há alguns anos, meu médico receitou-me um regime que eu segui religiosamente. Ao fim de dois meses tinha perdido quase dez quilos e sentia-me melhor do que nunca. Diante de resultado tão satisfatório, disse comigo mesmo: “Se é só isso que eu tenho a fazer para emagrecer, posso fazê-lo a qualquer tempo. Acho melhor esperar o momento mais oportuno. Emagreço a hora que quiser.”

Pensando assim, deixei o tempo passar e tornei a engordar. E é nesse pé que se encontra o caso até agora.

Everton de Paula, acadêmico e editor. Escreve para o Comércio há 43 anos

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