Doce de Mãe

Por: Sônia Machiavelli

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Dona Picucha, 85, viúva, lúcida e inquieta, filhos já quase na terceira idade, de repente resolve morar sozinha. Quer usufruir dessa coisa preciosa que é a liberdade, num processo de conquista que deve ter começado muito antes e se esboça possível quando circunstâncias externas favorecem a realização do desejo. Quem não conhece uma história assim? Dona Picucha são muitas.

No telefilme da Globo que garantiu à Fernanda Montenegro a conquista de um Emmy, prêmio internacional importante, Picucha é a protagonista da história Doce de Mãe, que tem no elenco de apoio Marco Ricca, Louise Cardoso, Matheus Nachtergaele e Mariana Lima . A história foi escrita na clave da comédia, e sob este aspecto a narrativa é marcada pela leveza da abordagem. O que não significa que seja banal, pois temas perturbadores como morte, doença, solidão, saudade, lapsos de memória e certa errância resvalam nas ações da protagonista à procura da felicidade possível e dos personagens que a cercam em busca de um equilíbrio que se quer recuperar.

O baque no eixo ao redor do qual gravita coesa e aparentemente feliz a família é representado pela saída de cena da empregada e amiga Zaida (Mirna Spritzer), que há 27 anos cuida bem da casa e faz boa companhia à Dona Picucha. Zaida resolveu se casar novamente e mudar de cidade. Para dar a notícia aos filhos, Picucha os convida a um jantar, preparando-lhes o prato preferido. É quando todos degustam a disputada iguaria trazida à mesa, que a anfitriã anuncia a virada de mais uma página de sua vida. Um clima de espanto seguido de previsão de catástrofe assoma às faces dos filhos: ai, meu Deus, mamãe quer morar sozinha; e agora?

Tomem-se sustos, surpresas, apreensões. Dona Picucha de início até se sai bem, mas com o passar dos dias se estressa por causa das lides domésticas e incendeia a casa acidentalmente. Superado o fiasco inicial, rende-se à evidência de que precisa de ajuda. Entretanto, expulsa a primeira empregada e vai com a segunda a um pagode que termina mal. Como os primeiros esquemas frustram, a família estabelece rodízio para que cada um faça companhia à Picucha. Mas ela se desgasta com as singularidades dos filhos, uma controladora, outro relapso, nenhum deles reconhecendo seu nível de autonomia e capacidade para decidir como quer gastar seus dias (e noites). Quem nunca ouviu falar dessa história?

São situações retiradas do cotidiano e por isso Doce de Mãe, quando exibido, ano passado, suscitou milhares de comentários nas redes sociais. O tema não apenas despertou curiosidade como motivou opiniões e aproximou pessoas de todos os cantos no trato de uma situação que se torna corriqueira, com o aumento do número de idosos no país. Foram muitos os internautas que afirmaram ter na família ou conhecer “uma Dona Picucha”, a quem os filhos querem proteger, mas na verdade tratam como se fosse um problema. Alguém já viu este filme antes?

No terço final da história, novo personagem, Jesus (Daniel de Oliveira), entra em cena para se tornar namorado da filha caçula de Picucha e também desvelar com sutileza preconceitos latentes. Nesta penúltima sequência, que acelera a narrativa rumo ao desfecho, alguns diálogos beiram o jocoso, com frases de dúbio sentido conferindo tom picante em dose exata, e se misturando a outras, triviais ou de efeito, na bem sucedida intenção de recriar a fala coloquial. A cena da noite de Natal fecha bem com happy end. Mas é a anterior que perdura na memória. Trata-se do encontro de mãe e filhos no cemitério, onde Dona Picucha puxa o coro para a imortal Juízo Final, de Nelson Cavaquinho: ”O Sol há de brilhar mais uma vez/ A luz há de chegar aos corações/ Do mal será queimada a semente/ O amor será eterno novamente// É o Juízo Final/ A história do Bem e do Mal/ Quero ter olhos pra ver/ A maldade desaparecer.”

Entre o ridículo e o sublime, a distância é mínima, sentenciou Napoleão Bonaparte. Ao viver uma velhinha maluca mas amorosa, que salva a vida com doçura, leveza e perseverança, Fernanda Montenegro escapa do primeiro e alcança o segundo, elevando o filme ao nível de “comédia humanista”, no dizer do autor, Jorge Furtado, provavelmente inspirado pela Comédia Humana, de Balzac.

A Globo, aproveitando o embalo da premiação, já anuncia para 2014 a volta de Dona Picucha em seriado. É ótima notícia.


A ATRIZ

Fernanda Montenegro

A lista de prêmios que lhe foram conferidos é tão vasta que enumerá-los seria impossível neste espaço. O Emmy Internacional na categoria Melhor Atriz, por Doce de Mãe, foi mais um e a encontrou como sempre presente e vivaz. Ofereceu o troféu aos três netos, lembrando que a vida pede resistência, pois o dia a dia é exigente e duro; depois definiu Dona Picucha como “uma velhinha maluca como eu”. Maluca não se sabe, mas que ela tem a força e a doçura da personagem, fica bastante claro numa breve passagem de olhos por sua biografia.

Arlete Pinheiro Esteves, nome que consta na certidão de nascimento, é carioca, tem 83 anos, dois filhos, três netos. Filha de uma dona de casa e um mecânico, ao terminar o primário aos 12 anos matriculou-se em curso de secretariado. Aos 15 inscreveu-se em concurso para locutora da Rádio MEC. Foi admitida e este foi o começo de sua carreira, pois o ambiente da emissora ensejava o contato com muitos artistas. Vinculou-se a um grupo de teatro e estreou como atriz no papel de Manuela na peça Sinhá Moça chorou. Foi na Rádio MEC, onde permaneceu 10 anos, que Arlete mudou de nome e passou a ser conhecida como Fernanda Montenegro. Foi a primeira atriz contratada pela recém-criada TV Tupi do Rio, em 1951, e participou de mais de 80 peças do Grande Teatro Tupi. Oito anos depois fundou sua própria companhia com seis companheiros, entre eles Fernando Torres, com quem se casou e viveu durante 53 anos, até a morte dele. Em 1963 passou a fazer novelas na TV Rio; em 1965 foi contratada pela Globo, onde fez todas as novelas de sucesso, fossem comédias ou dramas. Sua mais recente participação na emissora foi na minissérie Saramandaia, exibida neste 2013. No cinema começou nos anos 60 e fez trabalhos sempre destacados pela crítica. Em 1999, por sua atuação em Central do Brasil, recebeu o Urso de Prata no Festival de Berlim e foi indicada ao Oscar. No ano passado entrou na lista 100 melhores atrizes de todos os tempos. (SM)

Filme
Título: ‘Doce de Mãe’
Duração: 70 min
Ano de Lançamento: 2012

Sonia Machiavelli, professora, jornalista, escritora

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