O homem que caminhava

Por: Jorge Damante

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Desta vez a mudança seria para valer. Esta última visita ao cardiologista o deixara espavorido. Triglicérides nas alturas, colesterol no espaço, quase cento e cinquenta quilos. Pensava:

“— Meu Deus, em que me tornei?” Estava, portanto, decidido a dar uma guinada na vida. O sempre adiado projeto de caminhar todas as manhãs foi novamente trazido à pauta de sua existência.

Aproximava-se o final do ano. No ano novo tudo seria diferente.

Próximo à sua casa, em bairro limítrofe, um loteamento novo, ainda com poucas casas, ruas pavimentavas e planas, área verde ao derredor, possibilitou a execução do projeto.

Punha-se de pé religiosamente às seis da manhã, trajava as roupas de jogging, calçava o par de tênis e saia para caminhar pelas aprazíveis ruas da cercania. Um sossego, os pássaros a cantar... paz.

Mas como nem tudo é perfeito, não é que em uma casa simples de esquina havia dois malditos cãezinhos desses da raça pinscher que não param de latir quando distinguem ao longe a figura de um estranho? Como o percurso que fazia era de 800 metros, de seis em seis minutos os cães latiam para ele histericamente e aquilo realmente o perturbava demais.

Então veio a grande ideia.

— Mulher, quando for ao mercado traga-me um quilo de carne moída.

Mais tarde, passou em loja do ramo e adquiriu cem gramas do veneno chumbinho.

Na manhã seguinte deu-se ao trabalho de delicadamente manusear a carne moída recheada de chumbinho e dar aquela refogada com uma pitadinha de sal, saindo, em seguida, para caminhar, levando consigo quatro belas almôndegas de carne para presentear seus novos inimigos.

Como tinha por hábito sempre completar oito voltas no circuito que traçara, o que cumpria com rigor todos os dias, percorreu sete voltas com aqueles bichos chatos latindo feito doidos todas as vezes em que passava pela casa sob sua guarda. Na oitava volta, aproximou-se discretamente da grade de proteção da casa e atirou as almôndegas aos cães.

“Problema resolvido”, pensou. Paz completa seguiu-se nos próximos dias.

E assim se passou uma semana, até que, numa manhã de terça-feira, ao longe, o Homem avistou um grande número de carros estacionados em frente e nas proximidades da casa dos cachorrinhos chatos, assim também grande movimentação de pessoas na porta da residência.

Pensou: “Será o Benedito, só falta o povo da casa resolver fazer festa e perturbar meu sossego”.

Ao aproximar-se, percebeu, porém, um grande clima de comoção no local e, ao indagar de um rapazinho encostado em um carro, o moço respondeu-lhe que tinha morrido um menino de cinco anos ali naquela casa. Assustado, adentrou a modesta residência e avistou, no centro da sala, um caixãozinho branco, em que jazia inocente criança.

Pai e mãe debruçados sobre o infante, choravam e lamentavam a morte do querido e único filho, tão cheio de vida e de saúde, até ser surpreendido com a morte de Roni e Grilo, seus dois cãezinhos queridos, que havia ganho do padrinho no aniversário de dois anos. Atônito, deu meia volta, retornou ao lar, tomou banho e voltou à residência, a fim de velar o corpo daquele anjo.

Sepultado o menino, cumprimentou novamente o pai, lamentou o ocorrido e procurou inteirar-se melhor da causa da morte. O pai explicou-lhe que o filhinho de cinco anos morrera de tristeza, pois era por demais apegado aos dois cachorrinhos, o Roni e o Grilo. Após a morte dos cães, o filho adoeceu, foi internado, contraiu uma infecção e sobreveio o fatídico óbito.

— Mas e os cães, o que aconteceu mesmo com eles? Indagou sem graça o homem.

— Um malvado os envenenou, meu senhor. Mas Deus é justo, doutor, quem fez essa maldade há de pagar. Agradeço muito o senhor pela amizade demonstrada, nessas horas a gente precisa muito do apoio de pessoas bondosas como o senhor.

Os próximos dias foram terríveis na vida daquele homem. Acabou a caminhada.

Recluso, o homem já não tinha mais ânimo para nada. A consciência acusava-o e pungente dor remoía-lhe o peito. Não conseguia viver com o aguilhão do remorso. A vida, agora, vista em preto e branco. “Como fora capaz de praticar tamanha insanidade? Como não havia pensado nas consequências possíveis do insano e egoísta ato? ”, gritava silenciosamente sua consciência.

Na ante-véspera do Natal, madrugada alta, quando a família dormia tranquilamente, o homem, com discrição, portando um copo cheio de água, foi até o quarto de quinquilharias e, no fundo de um armário, pegou o resto do veneno chumbinho, misturou a água e tudo sorveu. Seu cadáver foi encontrado pela empregada na manhã seguinte, às seis em ponto.

O pai da criança, no velório, aproximou-se da viúva enlutada, que mal conhecia, e ponderou:

— Homem tão bom, meu Deus, por que fazer uma loucura dessas?

Jorge Damante, licenciado em História e bacharel em Direito

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