Preferência

Por: José Borges da Silva

A fila do caixa da padaria estava atípica, longa para um dia comum. À minha frente havia três pessoas adultas e, logo à frente destas, duas crianças. Um garoto baixinho, miúdo, não tinha mais do que cinco ou seis anos. Ao seu lado uma menina um pouco mais alta, mas aparentemente mais tímida. O menino levava em uma das mãos uma nota amarrotada que mal conseguia esconder entre os dedos. Na outra algumas moedas. Apontando para a vitrine do caixa o garoto cochichou aos ouvidos da menina o que iam comprar. Esta, então, deixou a fila foi até à vitrine confirmar, colocando o dedinho no vidro para conferir com mais exatidão a guloseima. Mas todos da fila, bisbilhoteiros, olhamos para o seu dedinho e ela baixou os olhos e voltou para perto do menino, provavelmente sem saber direito o que iam comprar. Mas chegou, enfim, a vez deles no caixa.

— O que você quer meu bem? Perguntou a atendente ao garoto.

— Chicletes, daquele lá, apontou o menino, com desembaraço.

— Qual? Reiterou a moça, olhando apenas de soslaio, enquanto pegava os pacotes de compras de uma senhora que estava logo atrás dele e ia lançando os valores no computador, através dos códigos de barras. Depois, tomou o cartão de crédito da mulher e completou a operação de pagamento. O menino, surpreso, ficou aguardando em silêncio.

Atendida a senhora, o menino, deixou as moedas e uma nota de dois Reais caírem sobre o balcão, acreditando que agora chegara, de fato, a sua vez.

— Eu quero desse aqui, moça... Falou enquanto dava a volta ao caixa para ir até o outro lado da vitrine, para indicar os chicletes que queria com precisão.

— Ah! Tudo isso em chicletes? Perguntou a moça, com um sorriso malicioso, enquanto tomava os pacotes de um rapaz que agora se aproximara, e passou a fazer os lançamentos no caixa. As crianças, já de um lado, mais uma vez aguardavam, com os olhinhos atentos aos movimentos da atendente, mas meio desconfiados a essa altura.

— Só um instante, tá bom? Falou a moça, desta vez com frieza na voz, ao notar impaciência nas crianças, enquanto estendia as mãos para apanhar os pacotes de um senhor de cabelos ralos e brancos, que seguia logo à minha frente. Mas este não lhe entregou os pacotes, fazendo com que o gesto de apanhá-los quedasse no vazio, descrevendo uma parábola imprecisa no ar. Em silêncio o homem apenas apontou para as crianças, com um sorriso amável no rosto. A moça, não entendendo bem o gesto ordenou com firmeza, estendendo a mão outra vez:

— Pode dar, o senhor tem preferência, nem precisava ficar na fila...

— Por favor, filha... É a vez deles agora! O homem falou com doçura na voz e seus gestos calmos explicitaram a questão a tal ponto que ficou impossível nova tentativa de contestação. A moça, então, caiu em si e corou. E atendeu aos pequeninos, aturdida, em respeitoso silêncio. Estes, enfim se foram, serelepes, contando os chicletes rua afora.


José Borges da Silva , procurador do Estado e membro da Academia Francana de Letras

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