Pode fumar lá no Céu?

Por: Paulo Rubens Gimenes

Duas coisas levavam cumpade Vadico ao paraíso: rezar e pitar.

Vivia entoando sua cantilena com forte sotaque ítalo-caipira: ‘Pro primeiro cigarro do dia, uma “Ave Maria”; pra fumo de rolo grosso, dois “Pai Nosso”; praqueles de palha fininha, três “Salve Rainha” ‘. E assim Vadico ia levando sua vidinha, sossegada, sem sobressaltos, preguiçosa feito cachorrada “esquentando o sol” no terreiro depois do almoço, tudo conforme o combinado lá com o dono do Céu.

E não é que, um povo faladô, de floreio no proseio, chegou tentando incutir pecado, ou suspeita de pecado, no Éden caipira do Vadico? Deram de fala que cigarro num era coisa de Deus, que fumar era pecado. Oh dó, judiação, sô! Mas logo os dois de que cumpade Vadico prezava tanto, Deus e o cigarro, deram de sê inimigo?

Apartado a contra gosto do cigarro, posto que era de Deus que gostava mais, Vadico estava contrariado, injuriado. Naquela vontade danada de soltar uma fumacinha depois do cafezinho “boca de pito” o caipira matutava:

- Meu Deus há de me dar um sinal, num boto crença neste povo rezadô não, é o Pai do Céu quem vai me falar se meu cigarrinho de palha é do bem ou do mal. Eu tô aqui atento pra quando ele der o sinal.

A primeira semana longe do cigarro, ou melhor, mais ou menos longe, posto que como todo pecador dava suas escorregadas, arrastava-se mais longa que prosa de gago e cumpade Vadico não se aguentava mais, ao contrário do que falavam, a danada da vontade não espaçava, só aumentava; foi então que, pros preparativos de quaresma, o povo se reuniu na Capelinha de Santa Rita de Cássia pra mode iniciá a novena.

Devoto como ele só, Vadico tava na primeira fila, terço na mão e toda a ladainha rezatória na cabeça; rodeado de beatas, padre Zezinho preparava o altar para a celebração, quando foi acender as velas deu por falta dos fósforos, procura daqui, procura de lá e nada, seus auxiliares, ninguém tinha um fósforo e altar com vela apagada é porta aberta pra alma penada, nem pensar! O padre se vira para os fiéis e pergunta em voz alta:

- Alguém aí tem binga? Sem vela acesa não tem missa.

- Tá aqui! respondeu prontamente cumpade Vadico estendendo a mão com o isqueiro aceso.

Terminada a missa mais bela que Vadico teve em sua lembrança, sentou-se no murinho ao lado da capela, tirou um “palheiro” do bolso, olhou pro isqueiro e depois de uma tragada profunda, olhou pro Céu e disse:

- Obrigado, meu Pai, pelo sinal!


Paulo Rubens Gimenes, Publicitário e ex-conselheiro do Comércio da Franca

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