Tata Madiba

Por: Eny Miranda

Uma chuva salobra, espessa e constante ensopa a terra, dissolve o ouro e descora os rubores do céu africano; empapa de cinza o tecido da vida; embuça a alegria da luz. Uma névoa lacrimosa impede, no espaço e na alma, qualquer possibilidade de azul. Derrama-se sobre telhados e paredes e esperanças, que passam a servir de canteiros para colônias de fungos, crescidas a olhos vistos; difunde-se por becos e ruelas e anseios, assolando superfícies e corações; cobre pedras, casas, muros, horizontes - horda de bolores dolorosos semeando tristeza, plantando desolação.

Se há ali algum sinal de clarividência, ele vem do desejo inabalável, da férrea vontade de uma voz poderosa e conciliadora - raio de sol aberto a todos os anelos. Se ali há tons sensíveis, vêm eles da força de uma alma pacificadora, de sua fé imperturbável na luz que se desdobra em matizes humanos e os une em uma só atmosfera transparente de liberdade, justiça e paz. A despeito das pálidas cores agora visíveis, a despeito do gris que as envolve, um homem consegue enxergar e respirar essa luz, em sonhos de sono e de vigília, porque sabe: a água, ainda que nascida na dor de muitos olhos, é augúrio de verde, presságio de renovo. E, mesmo encobrindo o brilho do sol, é esperança única de vida.

Observando as grossas paredes que o sufocam, pensa na relatividade universal; lembra-se de que aquelas muralhas são, ao mesmo tempo, interdição e promessa: conhece bem o que escondem. Sabe que um dia se abrirão para o profundo azul atlântico; para o transcendente azul índico, ambos translúcidos no âmago e no horizonte; no inapreensível, quase inalcançável, mas possível; no que foge às mãos e aos olhos, mas habita inteiro os devaneios e as certezas da alma. Crê na força da fé e do amor como instrumentos de libertação, geradores de harmonia. Crê - por que não? - na possível sensatez humana. Esse homem sabe também que as vastas águas terrenas, temperadas de iodo e sal ou doces, nascidas do céu, quando atravessadas de luz, igualmente se desdobram em cores - os mesmos véus que, unidos, as cobrem de luminosa, incolor transparência.

Madiba, Tata, Dalibhunga (este, nome recebido aos 16 anos e que significa “criador ou fundador da conciliação, do diálogo”), Nelson Mandela.

Do fundo de seu cárcere de pedra - que transformou em torre de um lúcido sonho: alcançar e difundir a luz da paz entre os homens - mesmo sem asas, creu. E alçou voo.

Então, espalhou mundo afora a luz da fé no amor e suas possibilidades.


Eny Miranda, médica, poeta e cronista

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