A Dama das Camélias - Do romance ao ballet

Por: Sônia Machiavelli

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Italo Calvino cunhou a frase em que considera clássica a obra de arte que nunca se acaba de ler porque o que ela tem a dizer é inesgotável. Observando a trajetória de A Dama das Camélias podemos concluir que o romance de Alexandre Dumas Filho é um desses clássicos. Publicado em 1848, conta a conturbada relação amorosa entre o estudante de Direito Armand Duval e a prostituta de luxo Marguerite Gautier. Contextualizada no início do século XIX, a história se ergue sob o signo da impossibilidade. Numa sociedade rigidamente estratificada, uma “cocote” jamais poderia se casar com um rapaz oriundo da alta burguesia. E vice-versa. Mas como o coração, em qualquer tempo, não conhece tais leis, Armand e Marguerite se apaixonam perdidamente e desejam ficar juntos. Com idas e vindas dos amantes, uma interferência decisiva do pai do rapaz, a renúncia da moça e o desfecho trágico, o autor construiu uma narrativa que vem seduzindo leitores de todas as épocas. As incontáveis edições e traduções, bem como a migração do texto literário para outras linguagens artísticas, são prova disso.

Dado o sucesso alcançado desde o lançamento, o escritor compreendeu que havia escrito uma história de impacto. Dessas capazes de percutir na alma do público questões ainda mal resolvidas que mesclavam sentimento amoroso e pressão social. Depois, acolhendo sugestão de amigos, ele concebeu uma versão teatral que intuitivamente inseriu entre a tragédia, dirigida à elite, e o melodrama, que atendia ao gosto popular. Dizem os biógrafos que Dumas Filho alcançou perfeito equilíbrio entre os dois gêneros e eixos de interesse porque conectou experiências pessoais enraizadas neles.

Tão grande foi a repercussão da primeira montagem teatral, concebida em cinco atos, que Giuseppe Verdi, arrebatado pela história, trabalhou arduamente para transformá-la em ópera. Em março de 1853, portanto um ano após a adaptação para a dramaturgia, ele apresentou em Veneza La Traviata. Em lugar de Marguerite Gautier, Violetta Valéry, linda cortesã de saúde frágil, que renuncia à vida mundana parisiense para ficar com seu amor, embora isso lhe custe preço alto. Do livro para os palcos o caminho foi quase um destino. Mas que ganhasse as telas e tentasse tantos diretores, foi surpreendente: de 1907 a 1980 foram oito os filmes que contaram a mesma história. Um deles teve em Greta Garbo e George Cukor o casal que contraria a sociedade para viver uma paixão. O último mostrou Isabelle Ruppert e Gian Maria Volonté como protagonistas.

Quando se pensavam esgotadas as possibilidades de novas roupagens para a mesma ficção, ela passou a ser exibida pela linguagem da dança. Criado pelo Ballet de Stuttgart em 1978, com a brasileira Márcia Haydée no papel principal, a ópera La Dame aux Camélias entrou para a história do Ballet de Hamburgo em 1981. A coreografia, arte que constantemente busca inspiração na literatura, passava a traduzir a história de amor escrita por Dumas Filho. Desde então foram muitas as companhias que a colocaram no seu repertório. No dia 9 de outubro deste ano tive o privilégio de assistir no Palais Garnier, em Paris, a uma apresentação.

Maratona de três horas de duração, com dois intervalos, o espetáculo exigiu aos bailarinos a fusão de talento dramático e técnica de alto nível. Esta aliança delicada de artes que não têm o mesmo código, nem as mesmas exigências físicas, obrigou os intérpretes a tensões crescentes, pois seria impossível abandonar o personagem num salto acrobático e reencontrá-lo depois na volta ao solo. É por aí também que se entendem as lágrimas dos artistas, aplaudidos durante dezesseis minutos seguidos no final da última apresentação da temporada.

Inspirado pela música de Chopin, o coreógrafo John Neumeier, de origem norte-americana, colocou no palco as primeiras bailarinas da Ópera Nacional, Eve Grinsztajn e Stephane Bullion, o partner, José Martinez, mais estrelas renomadas para mostrar uma história que começa no encontro de Armand e Marguerite no Teatro de Variedades. Ali ambos assistem à ópera Manon Lescault, sem se darem conta de que assistem ao seu próprio fim. Foi uma recriação curiosa pois Giacomo Puccini só estreou Manon em 1893, ou seja, 45 anos depois de Dumas ter escrito A Dama das Camélias. Mas Neumeier faz costura sutil e bela das duas histórias, onde amor e desespero dançam seu pas-de-deux na tragédia da separação irreversível, pois causada pela morte. São temas eternos, esses que sustentam os clássicos.


O ESCRITOR

Alexandre Dumas Filho (1824-1895)

Era filho natural de Alexandre Dumas (1802-1895), autor de Os Três Mosqueteiros, e uma modesta costureira, Catherine-Laure Labay (1793-1868). Só em 1831 o pai reconheceu o filho. Criado pela mãe até os sete anos, foi a partir desta idade internado num orfanato pelo pai, que obteve a sua guarda. Aos 20 anos conheceu Marie Duplessis. Ela será sua grande paixão e inspiração para criar Marguerite Gautier. Com ela viverá apenas um ano; Marie morre em Marseille, vítima de tuberculose, em 1847, após três dias de agonia.

Aos 21 anos Dumas publica seu primeiro romance, Aventuras de quatro mulheres e um papagaio. Aos 25, o segundo, A Dama das Camélias. Adapta o texto para teatro e em 1852 a peça estreia com grande êxito. No ano seguinte, Giuseppe Verdi leva a história para a ópera, denominando-a La Traviata.

Complexado por seu status de “filho natural”, torna-se advogado das “crianças sem pai”, dos “filhos-da-mãe”. Revela-se cada vez mais atento a problemas sociais como prostituição, adultério, divórcio, condição feminina, dramas familiares. Isso vai lhe valer durante algum tempo o apelido de “escritor de escândalos”.

Como seu pai, escreve muito. De Régent Mustel (1852) a Francilon (1887) são dez romances. Em 1874 é eleito para a Academia Francesa. Morre em 1895 em Marly-le-roi. É sepultado no cemitério de Monmartre.

No primeiro parágrafo do prefácio que escreve para A Dama das Camélias, explica: “Não se pode criar personagens senão depois de muito estudar os homens, como não se pode falar uma língua senão depois de a ter aprendido seriamente.” E continua: “ Não tendo ainda chegado à idade onde se inventa, eu me contento em recontar. Levo o leitor a se convencer da realidade desta história cujos personagens, à exceção da heroína, ainda vivem.” (SM)


Filme

Título: A Dama das Camélias
Autor: Alexandre Dumas
Gênero: Romance
Páginas: 206
Editora: Martin Claret

Sonia Machiavelli, professora, jornalista, escritora

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