A textura da vida

Por: Lucileida Mara de Castro

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No dia do casamento, o burburinho das mulheres na cozinha fazendo comidas para os que viriam, o ruído das crianças correndo atrás da alegria da infância eram tão altos e tão felizes que ninguém se deu pelo barulho da tesoura que cortava parte daquela colcha que, desde sempre, cobria a cama de casal de nossa avó.

Com firmeza e exatidão, ela recortou um quadro perfeito, porém, curiosamente, mais leve do que o restante da colcha, de cores mais vivas e firmes. Ela tinha entre seus dedos o parte mais bonita daquela peça que, desde que eu me recordo, fazia parte de nossa vida e de nossa casa.

A colcha era quase um ente, uma parte da família. Às vezes, vovó ficava horas a fio olhando para cada pedacinho daquela que era, com toda certeza, a estampa mais confusa de todas as estampas que eu já vira. Nada de flores, nada de cubismos, nada de lógica. Era uma peça niilista, nonsense. Para ela, no entanto, parecia fazer todo sentido. O que via minha avó?

Nos dias em que vovó estava triste, embrulhava-se na colcha e dormia por horas como se estivesse sendo envolvida pelos braços de nosso avô que já partira. Era assim que ela falava. Nunca pronunciava a palavra fatídica. Jamais disse que ele morreu. Quando se referia a ele, o verbo para justificar a ausência dolorida era sempre partir.

O mesmo cuidado ela tinha ao falar sobre o seu próprio fim. Quando eu partir... dizia e quando assim falava, nos deixava a todos muito tristes, porque vovó era o nosso grande amor. Ela sabia contar histórias mágicas. Quando estávamos tristes, ela encostava nossas cabeças em seu colo e emaranhava nossos cabelos com uma mão pesada e um jeito desajeitado de fazer carinho. Aquele jeito enviesado era carinho e, também, remédio. Nossas lágrimas secavam, nosso olhar se desanuviava e saíamos saltitantes e íamos brincar de qualquer coisa que morava muito longe do mundo do sofrer.

A nossa avó tinha um sorriso tímido, um olhar manso e era tão miúda e de corpo tão frágil que lembrava um passarinho. Se a economia de palavras enriquece, ela era muito rica. Não se engane pensando que ela era calada. Conversava sobre tudo, mas o fazia com propriedade. Dizia o que precisava ser dito, mas desprezava as falácias, os falares fáticos. Assim, nunca a vimos dizendo coisas para preencher o tempo ou o silêncio.

Encantava-nos o olhar de vovó. Era um olhar bondoso, sempre procurando um gesto, um espaço, uma maneira de nos dizer que éramos queridos, importantes para ela. Às vezes, ela tinha um jeito enigmático, profundo. Nessas horas sentíamos medo. Havia nela uma outra mulher, com uma dimensão que desconhecíamos.

Quando ela saiu do quarto trazendo o retalho da colcha e veio para o convívio com os outros, trazia esse olhar profundo. Aos poucos, foi se fazendo um silêncio filho das falas das mulheres que se calavam, filho da ausência dos gritos dos meninos que ali brincavam. Um espaço de tranquilidade e mansidão foi se construindo por onde ela passava com seu pedaço de colcha.

Nossa avó olhou profundo nos olhos da neta que se casaria ainda naquele dia. Estendeu a mão de um jeito leve e calmo. Segurou a palma da mão da moça e a trouxe para si, o gesto era de puro afeto. Os olhos da neta transbordavam perguntas. Os olhos da avó eram só respostas.

Quando as mãos se encontraram, a moça sentiu a maciez do pedaço da colcha da avó em contato com a pele da palma da mão. Os dedos da moça se fecharam em torno do tecido. A alma quis começar a entender algo, mas era-lhe muito complexo. Percebendo-lhe a confusão, a avó a aconselhou a ter calma, as respostas viriam para a neta como vieram para ela própria quando, há muitos anos, sua própria avó entregou-lhe retalho parecido.

A moça adentrou o pequeno quarto da avó e olhou atentamente para a colcha buscando o local de onde o retalho havia sido recortado. Encontrou-a intacta, completa. Como podia ser?

Umas poucas respostas da avó vieram ao seu encontro. Entregava-lhe a colcha da vida. Não da vida vivida, mas do vir a ser, da vida a ser construída. Sua colcha, disse nossa avó, ganhará tamanho e densidade, ganhará cores e texturas. Não a faça áspera, não a faça pesada, não a teça com os fios das mágoas que, fatalmente, virão com a convivência.

A jovem noiva olhou para a colcha intacta da avó. Aos poucos foi lendo as linhas do tempo. Chorou as tristezas da anciã, sorriu diante dos momentos enternecedores, viu-se ali, criança, mocinha e jovenzinha criada tanto pela avó quanto pela mãe. Notou a densidade irregular da peça: às vezes leve, às vezes pesada. Percebeu que os fios pesados era mais escuros e que fiaram a duras penas os dias infelizes.

Não pode deixar de comparar o tecido da colcha da avó com a leveza do tecido que tinha em suas mãos. A avó entendeu que a hora do último era chegada, e sua voz era colorida quando falou à neta: Ana, facilite o tear da vida!


Lucileida Mara de Castro, professora e diretora da escola Ave, Palavra!

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