Satisfação

Por: Jane Mahalem do Amaral

Nesse momento do ano só queremos desejar paz e alegria às pessoas que amamos. Sabemos que esses dois produtos, por mais que a mídia venha nos dizendo que podemos comprá-los, não estão à venda. Eles fazem parte de outro departamento que precisa ser mantido e construído sempre de novo, todos os dias, já que existe um bichinho invisível chamado rotina que os destrói sem dó e causa a nossa ruína. Quando desejamos paz às pessoas, no fundo estamos lhes dizendo que queremos vê-las satisfeitas e felizes. No entanto, é preciso compreender o que é satisfação. Conhecemos pessoas que deixaram de caminhar, abandonaram a ideia de um crescimento pessoal e se dizem satisfeitas do jeito que estão. Essa pessoa auto-satisfeita, ou auto-saciada fica entorpecida. Nela a vida parou de fluir. Receber a vida como ela se apresenta é uma sabedoria, mas aceitar passivamente sem criar o novo, sem a força de dar mais um passo é estagnação. No lado oposto, existe aquela que está sempre infeliz, nada lhe satisfaz e seu olhar só enxerga o que ela não tem e gostaria de ter. Desenvolve a inquietude da inveja e da comparação. Já nos disse Rubem Alves que a comparação nos deixa sempre de mãos vazias. Percebemos, então, que a satisfação não é uma atitude que já nasceu pronta, mas um caminho construído a cada dia.

A palavra paz, na maioria das línguas ocidentais, significa um caminho para dentro e para um lugar protegido e seguro. Nesse espaço, estaríamos livres dos nossos verdadeiros inimigos que são os inimigos da alma: os padrões acelerados de vida que nos fazem adoecer, os nossos pensamentos de auto-acusação e as palavras ofensivas das outras pessoas.

Em hebraico a palavra paz é ‘shalom’. Quando as pessoas se saúdam e dizem shalom, elas querem desejar tudo de bom ao outro. E o bom seria, originalmente, aquilo que está pronto, completo, perfeito. A palavra grega para paz é ‘eirene’ que quer dizer harmonia, um estado de repouso. Para os gregos, a pessoa satisfeita vive em harmonia consigo mesma, pois sabe lidar com as diversas forças da alma. Em latim é ‘pax’e vem de ‘pascisci’ que contém o significado de concluir um pacto, assinar um contrato. Assim, os romanos entendiam a paz como um entendimento entre as pessoas e uma compreensão para com ela mesma. Uma pessoa satisfeita conversa primeiro consigo mesma, observa seus diferentes pensamentos, emoções e faz com eles um pacto de compreensão.

Nesse sentido, paz e alegria são metas de um caminho espiritual para nos conduzir a um espaço interior de serenidade. Encontrar a verdade entre os dois lados da satisfação é o nosso desafio. O apóstolo Paulo nos diz: ‘Aprendi a contentar-me em qualquer situação. Sei passar privações e sei viver em abundância’. Então o que ele sabe fazer é renunciar ao que não tem e usufruir quando pode. Seria essa a nossa linha de equilíbrio: não culpar o outro quando me falta algo e saber aproveitar aquilo que a vida me oferece. Isso não é acomodação ou auto-saciedade, mas é compreensão, clareza e discernimento. Pessoas assim, são pessoas verdadeiramente satisfeitas e é muito bom tê-las em nossa companhia.

O caminho para esse lugar é o silêncio. Deixar vir à tona aquelas vozes íntimas e estruturantes que nos farão compreender o sentido oculto das coisas e enxergar a verdadeira satisfação, aquela que Fernando Pessoa nos sussurra na doce voz de Alberto Caeiro : ‘Sinto todo o meu corpo deitado na realidade/ Sei a verdade e sou feliz.’

Desejo a todos nós, neste Natal: Shalom! Eirene! Pax!


Jane Mahalem, escritora

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