Natal cinza molhado

Por: Maria Luiza Salomão

Gosto da cor cinza, principalmente combinada a outras fortes, amarelo ou vermelho. O vermelho natalino acontece na estação das águas, céu nublado constantemente. Natal branco é coisa do hemisfério Norte, quando a neve cobre casas, carros, estradas, e as crianças fazem aqueles bonecos gorduchos em frente a suas casas.

Sem olhinhos infantis para a magia da data, busquei ajuda em outros cantos, à procura de uma forma para a cor do espírito natalino. Não estou sozinha no meu desconsolo com essa data cristã, central e bonita: comemoração de nascimento, congraçamento (a graça no meio de nós) e paz. Vejo e ouço muita gente cansada de excessos, até nas decorações de Natal. “Amigo Secreto” perdeu o brilho da fraternidade. Gastamos um bom dinheiro e nem sempre nos agradamos, dando ou recebendo. O que fazer com o pernil, arroz enjoativo, farofas doces, frutas e castanhas no “Day After”? Se pensarmos em quem passa fome, nesse mesmo dia...

O que quero festejar, no Natal 13, século XXI?

Soube de uma nova brincadeira para desbancar o “amigo secreto”. Agora é o “inimigo oculto”, em que vale “roubar” o presente do outro. Pode ser divertido. Como não vivi a brincadeira, imagino a cena e, pelo menos na minha experiência, antevejo o despertar da competição coletiva, que pode levar (sempre alguém passa do limite, na bebida e nas emoções) a um desborde de agressividade. Brincar com fogo, diziam os antigos.

Outro dia vi, em um casamento, uma disputa bruta de mulheres em torno do buquê de noiva. O ritual - reza a tradição - indica a próxima noivinha, a que pega o buquê da que se casa, delicadamente jogado para as perfiladas casadoiras. Vi mulher derrubada no chão, pisoteada, todas se empurrando com mãos, quadris, cabeças, pernas e pés (imagino que afiadas unhas também tiniam), engalfinhadas no esforço de pegar o tal buquê. O que estaria em jogo?

Sei lá. Talvez o meu espírito esteja cinza. E, como ele combina com cores fortes, estou iniciando uma intensa e colorida dança da chuva no céu da minhºalma; coreografando um espírito pronto a ir de grafite a esbranquiçado; no trovejar de trombetas, no meu anímico céu plúmbeo grávido de nuvens, espero que meu espírito se dissolva em cortina de chuva messiânica.

Detrás dºágua toda, que abra o coração-estrela Polar, que ele não se asile de mim no chuvoso natal. Raios prateados silentes e molhados cintilem a minha e outras almas carentes de graça, ao som de Händel:

Aleluia.

Maria Luiza Salomão, psicóloga, psicanalista, autora de A alegria possível (2010)

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