Per omnia saecula saeculorum

Por: Eny Miranda

A mulher vê o homem desejado. Imediatamente, uma faísca, surgida não se sabe de onde, nela deflagra mil e uma explosivas reações: espécie de curtos-circuitos. Como num flash, volta no tempo até a infância, e o útero, e as outras muitas vidas desse intangível elo que une gerações, genealogias e ancestralidades. E se vê parte de longa linhagem marcada pelo domínio machista. Sente um antigo desconforto, um mal-estar alvoroçado, uma estranha e, ao mesmo tempo, familiar dor de cabeça, e não percebe que sua causa data de milênios, quando o homem a puxava pelos cabelos para o ato do amor; cada fibra de seu ser se revoltando e revolvendo, num misto de ódio e prazer; submissão e gozo.

Ninguém sabe de que misteriosas poções se alimenta a alma feminina. Se a mulher se sente oprimida e discriminada, o homem é seu único possível opressor e discriminador. Ao mesmo tempo, é o amante desejado. Que insondável enigma pode haver nas relações homem x mulher. A paixão que os aproxima e a desconfiança que os separa são tão fortes e avassaladoras quanto a necessidade orgânica da perpetuação da espécie. Entre ambos haverá sempre uma ponta de dúvida, um toque de rivalidade, e uma irresistível força de aproximação: maquiavélico jogo de atração e repulsa.

O homem olha a bela mulher, falando nas amargas experiências vividas por elas, mulheres, desde sempre: as parcas conquistas e as profundas feridas, em toda uma história de existência, abertas por eles, homens, fragilizando-as para se transformarem no seu ponto de apoio, na sua âncora. E talvez já esteja na iminência de se considerar um acomodado, até mesmo um miserável, por nada fazer para consolar essa criatura maravilhosa; ou (envergonhado) um covarde, pelo que fazem e fizeram (ele e toda a sua ancestralidade) contra suas adoráveis companheiras de espécie. Mas, ao mesmo tempo (e muito provavelmente), conclui que nada poderia ter mudado o curso dessa história, porque, na verdade, o problema nunca esteve neles, homens. Afinal, elas são mesmo muito frágeis, inseguras (apesar de deliciosamente indispensáveis), e necessitam de braços fortes e decisões inteligentes e sensatas, para se sentirem amparadas, completas e, paradoxalmente, independentes.

Ah, - acabam por pensar, ambos, cada um a seu modo - como é indispensável e maravilhosa essa dualidade! O côncavo e o convexo se encaixando perfeitamente, transformando diferenças em mútua comunhão.

E se olham, e se aproximam, ressabiados e desejosos... E começam tudo de novo...


Eny Miranda, médica, poeta e cronista

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