Formandos de 2013

Por: Everton de Paula

Nesta época do ano turmas e mais turmas de diplomandos estão dando o grande passo da fase de estudos para a do trabalho. Nesse momento, eles passam do mundo agradável das possibilidades para o mundo exigente da realidade.

Que devemos dizer a esses jovens, nós, os membros de uma geração mais velha? Devemos dizer-lhes como devem vencer na vida sem fazer força?

Acho que não. Acho que devemos dizer-lhes a verdade. Devemos contar-lhes sobre o mundo em que ingressam e o que precisamos deles e por quê.

Creio que devíamos dizer-lhes: Formandos de 2013, sejam bem-vindos à preocupação. E à incerteza. E aos desafios. E ao perigo.

Para onde quer que olhem vocês, para o exterior ou para dentro de si mesmos, nossos problemas são gigantescos. Isto não é novidade. A geração imediatamente anterior à de vocês lutou contra avassaladores problemas econômicos e de justiça social. Fizemos tudo o que pudemos e talvez, afinal de contas, não nos tenhamos saído tão mal assim mas, embora dando o melhor de nós, descuidamos de algumas coisas.

Que pretende a geração de vocês em relação à onda de crimes e corrupção política? Sobre o suborno? Sobre o vício? Sobre a pobreza material e espiritual?

Não se iludam estes são sintomas históricos da decadência. E qual é a resposta? A resposta é gente. Não qualquer pessoa, mas um tipo especial de gente.

Precisamos de gente honesta, honesta com a intolerância feroz que considera a mentira algo desprezível e a quebra de uma promessa uma negra desgraça.

Que farão vocês diante daqueles vis interesseiros milionários que fazem do ensino um comércio em prejuízo dos alunos?

Precisamos de gente inteligente, que possa avaliar as probabilidades, formar juízos, agir. As nações já estão procurando desesperadamente adquirir os melhores cérebros de outras nações.

Que farão vocês diante de um governo que prioriza a quantidade de alunos numa faculdade em prejuízo da qualidade do ensino básico e mesmo da pesquisa?

Precisamos de gente corajosa, que fique entusiasmada e não paralisada pelo perigo, que saiba correr o risco calculado e perder... Se necessário for. Perder tudo, menos a disposição de tornar a correr o risco.

Precisamos de gente que tenha paciência, mas capaz de tornar-se perigosa diante de um abuso. A história é clara nesse ponto: nenhuma nação jamais alcançou a liberdade sem lutar por ela, nem a conservou sem estar disposta a lutar.

Precisamos de gente com a paixão do trabalho, não só para alcançar glória, dinheiro ou estabilidade, mas pela satisfação que traz a realização de uma tarefa difícil, ou mesmo tentar o impossível.

Precisamos de gente patriótica, não com o orgulho cego que não permite ver as boas qualidades das nações desenvolvidas, mas com a consciência de que o amor da pátria é essencial a todos os povos, pois que no orgulho há confiança, e na confiança, realização.

Precisamos de gente alegre, gente cordial, educada, gente que ame a vida e saiba que ela traz modificações, e aceite isso de bom grado. Precisamos de pessoas com a imaginação, o humor, a curiosidade e o amor do belo que ultrapassam as fronteiras nacionais, tornando-as cidadãs do mundo.

E de onde vêm tais pessoas? Vêm do coração e da alma de qualquer nação que se conserve capaz de se julgar e de se descartar de suas loucuras.

Essa gente vem de lares em que a ética é a primeira regra de conduta, onde a disciplina básica é a autodisciplina, de universidades onde o conceito de educação abrange não só a aquisição de conhecimentos, mas também uma espécie de peregrinação interminável aos objetivos distantes e difíceis da justiça, da honra, do serviço à humanidade e do cumprimento à palavra dada.

Todas as gerações têm tido sua cota de gente assim. A geração de vocês também produzirá a sua, mas é preciso que haja um número maior do que jamais houve, porque o curso da história é hoje muito, muito mais rápido e isto nunca se tornou tão necessário como agora.

Formandos de 2013, a liberdade não é apenas um privilégio, é uma prova e aqueles que não conseguirem passar na prova serão privados dela. Sejam, pois, bem-vindos ao campo de provas. Tragam consigo toda a coragem, vitalidade e força de vontade que puderem.

Vocês vão precisar delas assim como o lugar de emprego honesto em seus princípios vai precisar de vocês.


Everton de Paula, acadêmico e editor. Escreve para o Comércio há 43 anos

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