Restaurações e renascimentos

Por: Sônia Machiavelli

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Um dos três retábulos pintados por Fra Angélico, tendo como tema a Virgem Maria, tornou conhecida dos que amam os pintores da Renascença certa cidade italiana. A Anunciação de Cortona, que hoje se encontra no Museu Diocesano, era, até os anos 80, uma das principais atrações locais, ao lado do Cristo carregando a cruz, de Pietro Lorenzetti, e do Cristo morto, de Lucas Signorelli. É claro que contribuía para o prestígio até então a crônica milenar do pequeno centro urbano erguido pelos etruscos. Hábeis arquitetos, tornaram-se célebres pelas várias vezes em que tiveram de reconstruir a cidade, cujo destino parece ter sido, desde o séc. I aC, reagir a ataques. Em meados do século XIII, com a maioria das habitações destruídas em decorrência de disputa com a vizinha Arezzo, os habitantes, liderados por uma santa, Margarida, e pelo mais leal discípulo de São Francisco de Assis, Eli, reconstruiram a vila, erguida a 600 metros de altura, sobre um vale magnífico. Outros movimentos semelhantes seriam registrados até 1860, data da anexação ao reino da Itália.

Foram esta história e paisagem que seduziram a escritora Frances Maynes, autora do livro de enorme sucesso que, tendo Cortona por cenário, vendeu milhões de exemplares e divulgou o lugar nos quatro continentes. À gente do circuito das artes que amava Fra Angelico, Lorenzetti e Signorelli, juntaram-se milhares de turistas curiosos por conferir o que a autora de Sob o Sol da Toscana descrevia. Todo mundo que lia o livro era aliciado pelo olhar que acenava para renascimentos e celebrações à vida.

Com uma narrativa simples, onde a ação está centrada na compra e reforma de uma casa decadente, e na reabilitação emocional da protagonista enquanto se engaja neste trabalho, o livro, que é autobiográfico, tem o mérito de despertar apetites. Plástica nas descrições, sensual nas metáforas, minuciosa no transporte de detalhes reais para a linguagem literária, capaz de tomar o leitor pela mão e lhe mostrar com intensidade o que a deixa extasiada, a escritora possui o dom de ir reunindo informações que se somam e se adensam para formar imagens. De vez em quando, oferece receitas. Maynes, que por muito tempo foi crítica de gastronomia, mostra como a culinária da Toscana está assentada em combinações simples e perfeitas, resguardadas por séculos de prática no manuseio dos produtos locais.

Depois do sucesso do livro, seria natural que algum cineasta se interessasse pela história de tanto apelo. Audrey Wells chegou primeiro. É um pouco diferente o que se vê na tela, embora o ambiente tipicamente toscano se revele no entorno bucólico da propriedade, nos palácios medievais que abrigam lojas e restaurantes, nas vias estreitinhas onde em certos trechos mal transitam duas pessoas juntas, na Piazza della Republica, no Palazzo Comunale e em outros centros históricos. Foram inseridos entretanto episódios e personagens desconhecidos do leitor, o que causa algum estranhamento a quem busca nas imagens o que sonhou nas palavras. Curiosamente, isso não prejudicou o êxito junto ao público, pois o que parece atrair as pessoas é a mensagem otimista subjacente às duas linguagens, a literária e a cinematográfica. Ou seja, o que empolga é a reconstrução da casa e o soerguimento da protagonista, ambas inicialmente apresentadas pela escritora e pelo diretor num momento de rupturas e fragilidades. A forma como se resolvem os dilemas suscita simpatias, pois favorece uma atitude esperançosa diante da vida. Talvez por ter consciência clara disto, o diretor introduziu no filme uma criança que nasce quando termina a história da protagonista. Quer dizer, quando esta encerra uma para começar outra, sem vislumbres quanto ao futuro, como acontece na vida real. O happy end é sempre uma ilusão.

Estive em Cortona recentemente e fui tocada pela beleza e pelo mistério da cidade que inspirou artistas contemporâneos como Mário Monicelli em Mattia Pascal; Abbas Kiarostami em Cópia Fiel; Roberto Benigni em A vida é bela. Uma aura de magia me envolveu e me deixei apaixonar por aquela paisagem onde ciprestes verde-musgo parecem compridas espirais brotadas da terra alaranjada, a mesma que no verão se tinge com os girassóis em flor. Dei razão a Frances Mayes, que escolheu morar lá metade do ano, com direito a ver noivos de todas as latitudes desfilando seu traje a rigor e sua ventura amorosa pelas ruelas seculares. Cortona nos reconforta pela solidez em tempos pós-modernos, onde tudo parece fragmentado e o desafio constante é conectar, aglutinar, unir, integrar (se). Para renascer de cada morte e conquistar vida nova.


A ESCRITORA

Frances Mayes nasceu em 1940 no estado norte-americano da Geórgia. Fez os primeiros estudos na Virgínia e cursou letras na Universidade da Flórida. Em 1975 foi aceita na São Francisco para lecionar Escrita Criativa, função que exerce até hoje, durante o segundo semestre de cada ano. No primeiro, permanece em Cortona, onde dirige o Tuscan Sun Festival.

Poeta bem acolhida pela crítica, Maynes publicou entre 1977 e 1997, Escalada ao Acongagua, Domingo, As artes do fogo, Horas e Ex votos. Já com nome reverenciado por vasto segmento de leitores amantes da poesia, surpreendeu seu público ao voltar-se para a prosa em 1997, ano em que publica Sob o Sol da Toscana. Reza a lenda que a escritora colhia amoras com amigos em Cortona quando avistou uma casa parcialmente em ruínas, cercada de castanheiros e carvalhos, o que lhe causou forte impacto emocional. Saída de um relacionamento amoroso complicado, decidiu-se por comprar o imóvel e reformá-lo, dando-lhe o nome de Bramasole. Foi essa experiência de restaurar a casa e a si mesma que deu origem ao livro. Tão logo foi lançado, o título galgou o primeiro lugar na lista do The New York Times, ali permanecendo por meses, mantendo-se entre os mais vendidos por dois anos. Nas páginas de Sob o Sol da Toscana, o leitor encontra as impressões da autora sobre a paisagem esplendorosa, a cultura milenar, os artistas renascentistas, a culinária de receitas seculares, os perfumes, as cores, os sons locais. Como já disseram muitos, há nelas intensa celebração dos sentidos humanos e, por extensão, da vida que sempre se renova.

Cortona parece ter sido decisiva na vida de Maynes, que ali se estabeleceu em 1998 e desde então se divide entre a cidadezinha toscana e a San Francisco americana. Depois do primeiro livro, lançou outros tendo a mesma região como tema: Bella Toscana: a doce vida na Itália e Todos os dias na Toscana. (SM)


Filme

Título: Sob o Sol da Toscana
Autora: Frances Mayes
Editora: Rocco
Ano: 2008
Páginas: 302


Sonia Machiavelli, professora, jornalista, escritora

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