A madrinha

Por: Inerita Alcantara

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Magra, pele clara, longos cabelos pretos e lisos, sempre presos na nuca. Circundavam-lhe os olhos esverdeados vincos como traços em mapa de estrada. Falava pouco, andava furtivamente como a carregar um segredo.

Todas as fazendas e sítios da redondeza conheciam seus préstimos. Para a mãe da menina, ela costumava lavar roupas. Mas deve ter sido muito mais que lavadeira, pois a ela confiou a menina como afilhada.

Tinha duas irmãs, a madrinha. Ela era a do meio. Viviam todas com a mãe que as ensinou o ofício do tear. E disso elas sobreviviam, exceto a madrinha, que como já dito, ganhava a vida prestando serviços nas casas das fazendas. Houve época em que ela trabalhou ajustada para um fazendeiro só por muito tempo.

A casinha das mulheres parecia um templo ao asseio. Os copos de alumínio em que serviam água semelhavam prata brilhante; o chão de terra batida era de um branco de tabatinga que humilhava os ladrilhos de todos os casarões vizinhos. A pequena horta de verdura tinha canteiros bem definidos, com plantas viçosas e bem cuidadas. Alguns produziam o ano inteiro. E havia flores, muitas flores pelo pequeno quintal: rosas, beijinhos, coração magoado, cravos...

A casinha era também um templo à castidade. A mãe, viúva há muitos anos, tinha uma reputação incontestável. Todos a chamavam simplesmente de Dona. As filhas iam ficando beatas, que era o nome que se dava a quem não se casava naquela época. Muito sossegadas e prestativas e honestas.

E foi assim que a pequena afilhada teve consciência de que havia um menino naquela casa; pouco mais velho que ela. Longe de sentir ciúmes do afeto da madrinha, sentiu foi inconsciente estranheza por não haver ali homem nenhum. Talvez a madrinha fosse viúva.

E um dia... era tempo de Natal. As pessoas quase não se viam por causa das chuvas constantes que enlameavam as estradas. O pai da menina nem pôde mandar o leite para o ponto do caminhão em dias como aqueles, de tanto barro que havia. Os céus cinzentos carregavam ainda mais a solidão naquelas paragens de Minas Gerais. Uma atitude circunspecta tomava conta dos pais, mas eles quase que nada falavam. Quase nada se falava mesmo em geral. A menina adivinhava, lia nas entrelinhas...

Assim, para ela o Natal era apenas um tempo em que as pessoas ficavam um pouco mais sérias, costumavam rezar mais. Às vezes, no rádio que o pai ouvia, falavam do Natal, mas ela não chegou a formar na mente um desenho de como seria ele na cidade, ou mesmo nos sítios ao redor.

Mas era Natal! Ela o adivinhava mais que sabia.

E sentiu-o plenamente quando, após alguém ter batido palmas à porta da entrada, o pai foi atender, – ele estava em casa, que ninguém ia trabalhar na roça com aquela chuvarada toda! E ele voltou para a sala com um objeto nas mãos, colocou-o sobre a mesa e resmungou algumas palavras. A menina só entendeu que a madrinha tinha enviado aquele objeto para ela... o pai disse que era uma árvore de Natal.

Passou então a venerar a madrinha através da pequena árvore. E examinou bem a arvorezinha e viu que era um galho seco recoberto com algodão de tear e pequenas bolas de papel-jornal envoltas em papel prateado de maço de cigarros.

E todos os dias ia olhar a arvorezinha. A imaginação, potrinho sem campo por onde galopar num mundo que acabava ali atrás da cerca do curral, vagava... E ela ficava apenas contemplando cada bolinha presa ao galho por uma linha branca, fininha... cada chumaçozinho de algodão colado com grude de polvilho no galho...

O coraçãozinho da menina bateu diferente. Ela não sabia, mas é que ela acabava de conhecer um sentimento lindo, chamado gratidão.

E quando o irmão, por algum motivo bobo qualquer que ela não lembra, disse-lhe que a árvore não fora feita para ela, que era para a madrinha mesma..., que havia escutado o pai contando que as irmãs e a mãe não permitiram aquela árvore de Natal na casa delas porque tinha sido feita por mãos de pecadora... Ai!

A menina entendeu tudo! E então ela conheceu mais um outro sentimento: o do desapontamento.

Mas nunca esqueceu a madrinha, que lhe mostrou significados do Natal.


Inerita Alcantara, professora

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