Azul Tempestivo

Por: Janaina Leão

Beijo milímetros, eu curto cada gole, cada pedaço emocionado da minha sensibilidade e da deles os Outros.

Por baixo dos óculos de sol que protegem da Luz Forte e também dos olhares que condenam lágrimas de emoção, vejo o que muita gente não vê. E quando olho nos olhos, geralmente não preciso falar, só constato o que minha alma sente e transmito o que desejo, na claridão do meu mel /esverdeado como os do meu avô os dele com catarata aos 83, os meus ansiosos aos 33.

Tem cores e Santos que se afinam naturalmente. Somos bichos antes e depois de tudo. Só para lembrar, hoje escrevo este texto, que é sobre um encontro ao acaso (se bem que não acredito nele). Conheci/vi os olhos azuis mais lindo-limpos que já vi na vida. Num corpo sujo e escravizado pelos princípios do prazer imediatos e imperativos para este moço.

Mas... Os olhos dele encontraram-se com os meus e se entenderam cada um entrou na tenda do outro e se enxergou. Então o moço de olhos azuis, a quem neguei “dois real”, e eu - conversamos um pouco.

Desculpa ae moço não vou ajudar o Senhor se destruir, eu não gosto de cachaça nem de pedra, não quero pra mim, não quero pro Senhor.

_Eu nem fumo Pedra moça você ta viajando, eu só tomo essa “disgraça”...

_Desculpa ae moço seus dedos estão amarelos nas pontas, eu já fiz isso, to ligada que o Senhor faz piscadinha de cumplicidade.

Resignado ele diz:

_Eu tocava piano desde os seis anos...

E aqueles olhos me convidaram a segui-lo, sentou-se em frente um piano na Estação da Luz, no dia treze de outubro às 08h38 minutos, dia lindo e esse cara tocou dez minutos pra mim, naquele piano público logo na entrada, na frente da Pinacoteca. Um concerto/conserto desesperado, angustiado e belo. Nós seres humanos somos nossos próprios Deuses, e assim como Shiva, abrimos os braços e construímos mundos ao passo que ao fecharmos... O cara parou a Estação da Luz, foi aplaudido e saiu sem “o dois real”, fez um hang loose pra mim e “vazou”, como quem diz, e eu acredito: eu não morri ainda.

O mundo é azul da cor do mar, às vezes passamos por tempestades que assim como veias estufadas e dolorosas na córnea, impedem a retina de enxergar/se. Mas passa... Tudo passa, alegria e tristeza, e na maioria delas a gente sobrevive/sobrevive-se.

Valeu cara, se um dia você ler isso aqui: Maktub - saberemos que você melhorou da vista, assim como eu.

Janaina Leão, psicóloga
 

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