O CPF de antigamente

Por: Luiz Cruz de Oliveira

O rapaz atrás do guichê foi objetivo, seco:

- Só tem lugar em pé.

Aceitei. A vontade de chegar em casa era tamanha que viajaria até amarrado, do lado de fora do ônibus. E, naquela noite, conheci José Aparecido da Silva, companheiro de infortúnio, durante as sete horas de viagem entre Goiânia e Uberaba, onde chegamos depois das cinco da manhã. O rapaz gostava de conversar, por isso, fiquei logo sabendo que ele trabalhava em agência bancária na capital goiana.

- Estou indo visitar meus pais... eles moram perto de Uberaba... duas horas e pouco de jardineira.

- E não tem agência bancária na sua cidade?

- Tem.. tem... Mas eu pedi transferência pra bem longe. Lá na minha cidade eu não existia.

- Não existia? Como?

- Eu jogava bola, as pessoas falavam: “O fio do Zuza Verdureiro marcou um gol”. Eu brigava na rua, o povo falava: “O fio do Zuza Verdureiro bateu no Zico da Dona Zica”. Arranjei emprego, o povo falava: “Sabe quem tá trabalhando no banco? O fio do Zuza Verdureiro”. O José Aparecido da Silva, que era eu, não existia na cidade. Enfezei, pedi transferência, vim trabalhar em Goiânia.

Uma vida inteira depois daquela viagem, relatei as peripécias vividas, revelei as agruras daquele rapaz que almejava unicamente uma coisa: ser José Aparecido da Silva. Contei o ocorrido no salão de cabeleireiro, enquanto aguardo minha vez de ser barbeado. Muitas vozes se elevaram, querendo dar testemunhos de casos semelhantes. Foi a voz do barbeiro, porém, que se impôs.

- Era desse jeitinho. Lembra, Edu, do pessoal que jogava bola lá no Brejinho, lá naquela redondeza?

- Lembro alguns: o Zé da Venda, o Paolo do Sô Totõe, o Enquique do Nicanô, o Luisinho do Donizeti, o Tião da Vicentina, o Gerardo do Sô Ramilo, o Luisinho da Barra Grande, o Manezinho da Benedita Cachimbuda, o Tião do Arlindão, o Luiz do Arlindinho, o Vartim da Dona Carolina, o Ronan do Sô Astrogil...

- Tem mais... Tem o Vicentão da Barra Grande, o Tião do Horácio, o Vitim do Sô Dito, o Tõe da Mariinha Dutra, o Lazim do Fiíco, o Tuta do Jão Polino, o Deca do Sô Ercídio, o Osmar do Geraldo Maela, o Zé do Argemiro, o Zé do Sô Dito, o Zezinho do Nego Cearense, o Zé do Roque Lovo, o Tõe do Dudu...

Deixei pra fazer a barba outro dia, vim para casa matutando:

- A vida correu depressa demais. Se resolverem montar hoje um time de futebol lá na Fazenda Limeira, quem não apresentar o Cadastro de Pessoa Física, não será escalado sequer para o banco de reservas.

A vida correu. E continua correndo depressa demais.

Se bobeio, acabo atropelado.

Luiz Cruz de Oliveira, professor, escritor, membro da Academia Francana de Letras

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