Mostra de Kubrick aposta em imersão

Por: Bruno Piola

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Stanley Kubrick não era um cineasta prolífico. Foram apenas 13 longas-metragens em uma carreira que durou mais de quatro décadas. Mas basta assistir alguns deles para entender o porquê: cada uma de suas produções é envolta num nível de técnica e perfeccionismo poucas vezes antes visto na história do cinema. Seus filmes sempre evocam com perfeição um período, uma temática, um sentimento, sejam eles ambientados na Roma Antiga, na Segunda Guerra Mundial ou mesmo nas infinitudes do espaço. Afinal de contas, mesmo com apenas pouco mais de uma dúzia de filmes no currículo, Kubrick não se ateve a um só gênero. Aventurou-se e extraiu o máximo do drama, épico, filme de época, ficção científica, terror, guerra, noir. Essa diversidade de experiências na sétima arte foi transposta com fidelidade na exposição Stanley Kubrick, em cartaz no MIS (Museu da Imagem e do Som) de São Paulo até este mês.

Em espaços pequenos, mas bem preenchidos, a mostra permite conhecer, pedaço por pedaço, obra a obra, quem era o cineasta. Cada etapa de sua vida ocupa uma sala, cada uma com artigos originais, nunca antes vislumbrados pelos amantes do cinema. Para quem conhece a fundo a obra do diretor, os itens expostos intrigam, surpreendem, assombram, mas, sobretudo, evocam uma sensação de nostalgia por uma época - e uma forma de fazer cinema - que não mais existem.

A experiência altamente sensorial se inicia em uma sala anterior ao espaço da exposição, uma espécie de resumo do que se verá a seguir. É lá que se encontram dois dos primeiros tesouros da mostra: a cadeira em que o diretor se sentava e o Leão de Ouro que ele recebeu no Festival de Veneza em 1997. Além disso, no mesmo espaço estão expostas câmeras fotográficas e lentes pessoais do diretor. Afinal, outro trunfo da mostra é fornecer informações detalhadas sobre facetas de Kubrick pouco conhecidas até mesmo pelos especialistas em cinema, como os seus trabalhos como fotógrafo.

Entretanto, a mostra só se torna verdadeiramente impactante quando se adentra o seu primeiro “ambiente cinematográfico”, dedicado a Glória Manchada de Sangue. Uma iluminação fraca, sacos amontoados uns aos outros e um telão com os trechos iniciais da produção traduzem o clima bélico e a sensação de insegurança e medo dos soldados prestes a embarcar em uma missão suicida.

É esse o grande diferencial da exposição: aprende-se fazendo parte da carreira e dos filmes de Kubrick, ao invés de apenas ler e observar objetos sem experimentar qualquer tipo de identificação. Amando ou odiando, é impossível ficar alheio ao que se vê nos corredores do MIS.

Desse mesmo modo, é possível transportar-se ao século XVIII de Barry Lyndon e ter dificuldade de ver os detalhes dos objetos expostos devido à iluminação que imita a luz de velas (remetendo ao hiperrealismo do diretor, que filmou o longa apenas com fontes de luz disponíveis na época em que o filme se passava); sentir-se observado pelas máscaras presentes em De Olhos Bem Fechados (somente para depois vesti-las e bancar o voyeur), ser transportado para um cenário futurista e se incomodar com a sociedade distópica de Laranja Mecânica e conferir o interior da centrífuga de 2001 - Uma Odisseia no Espaço. E, para quem tem coragem, o melhor de tudo é se aventurar pelos escuros corredores do Hotel Overlook, sem saber o que pode estar à espreita ao dobrar um corredor.

Obviamente, Kubrick é mais que uma experiência sensorial. Também presentes estão itens originais únicos. Na exposição, pode-se ficar a um centímetro da História ao observar a foto do final de O Iluminado, a fantasia completa dos macacos de 2001 - Uma Odisseia no Espaço e o Oscar que Kubrick ganhou pelos Efeitos Visuais do inovador filme de ficção científica, em 1969. E quem tem paciência de perder alguns minutos em apenas um item pode saborear as anotações de próprio punho do cineasta. Há que se comentar também sobre o extenso trabalho de pesquisa da curadoria da mostra, que satisfaz quaisquer curiosidades do cinéfilo mais inquisidor com pertinentes quadros instalados próximos dos seus respectivos artigos.

Apesar de suas qualidades, Kubrick não é uma mostra para todos, já que funciona melhor para quem já viu alguns dos filmes do cineasta. Quem visitar com o objetivo de conhecer, pela primeira vez, quem foi Stanley, não sairá decepcionado, mas vai deixar de experimentar a sensação de conhecer de uma maneira mais íntima um cineasta visionário e meticuloso, que, realizando apenas 13 filmes, mudou para sempre a história do cinema.


O DIRETOR

Stanley Kubrick

O cineasta nasceu no dia 26 de julho de 1928, no bairro do Bronx, em Nova York. Seu fascínio pela fotografia começou quando Kubrick, aos 13 anos, ganhou uma câmera de seu pai. Já no final da década de 40, ele foi contratado como fotógrafo pela revista Look. O jovem se casou com a sua namorada de escola, Toba Metz, em 1948.

Foi nessa época que Kubrick começou a frequentar os cinemas de Nova York e a se inspirar em diretores como Max Ophüls e Elia Kazan. Sua carreira no cinema começaria pouco depois, em 1951, quando Kubrick passou a realizar documentários noticiosos de curta-metragem. No mesmo ano, o cineasta se divorciou de Metz. Com o sucesso de filmes como Day of the Fight (1951), ele passou a se dedicar exclusivamente à sétima arte.

Na década de 50, Kubrick passou a produzir longas-metragens de ficção, com filmes menores como Medo e Desejo (1953), A Morte Passou por Perto (1955), O Grande Golpe (1956) e Glória Feita de Sangue (1957). Sua carreira deu um salto, porém, ao dirigir o épico Spartacus (1960), com Kirk Douglas no elenco e na produção. A tensa relação com Douglas no filme fez Kubrick, a partir dali, escolher produções nas quais tivesse mais liberdade criativa. Em 1955, Kubrick se casou novamente com Ruth Sobotka, mas a união durou apenas dois anos. Já O terceiro, em 1958, com a atriz Christiane Harlan, duraria até a morte de Kubrick. O casal teve duas filhas.

Em uma nova fase da sua carreira, o cineasta passou a experimentar com gêneros diferentes, criando obras-primas como Dr. Fantástico (1964), 2001 - Uma Odisseia no Espaço (1968), Laranja Mecânica (1971) e O Iluminado (1980). Nos próximos 20 anos, Kubrick faria apenas mais dois filmes, Nascido para Matar (1987) e De Olhos Bem Fechados (1999). Ele chegou a trabalhar na produção de A. I. - Inteligência Artificial, mas não teve a chance de dirigi-lo. Stanley Kubrick morreu no dia 7 de março de 1999, aos 70 anos. A. I. foi posteriormente filmado por Steven Spielberg e lançado em 2001.


Exposição

Título: Stanley Kubrick
Data: Até 12 de janeiro de 2014
Local: MIS-SP - Avenida Europa, 158, S. Paulo
Horários: sábados10h às 3h; domingo das 10h às 23h

Bruno Piola, Repórter do GCN Comunicação

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