O sonegômetro

Por: Chiachiri Filho

Alguns ainda devem-se lembrar do Eduardo Brugin. Brugin morava lá pelos lados da Santa Rita/Santa Cruz em uma casa de cimento feita por ele mesmo. Fazia ponto na Praça Barão e era uma das figuras populares da nossa Franca. Militante político, Brugin era fã ardoroso de Ademar de Barros. Vivia com as lapelas de seu paletó adornadas com os símbolos da campanha de Ademar, especialmente o trevo de quatro folhas. A grande surpresa foi quando Brugin abandonou Ademar para defender o seu maior opositor, isto é, o Jânio Quadros. De um dia para outro, as lapelas de Eduardo ficaram adornadas pelas vassouras do Jânio. 
 
Eduardo Brugin, no entanto, jamais mudou a sua posição obsessiva, intransigente e corretíssima de pagador de impostos. Vendedor autônomo, ele fazia questão de divulgar a sua atitude. Chegava a publicar no Comércio da Franca um relatório sobre os impostos devidos e religiosamente pagos. Ele se orgulhava de ser um contribuinte, um contribuinte exemplar.
 
Infelizmente, Eduardo Brugin morreu antes de ver o “impostômetro” instituído pelos empresários paulistas para medir o quanto o povo paga para manter os serviços da União, dos Estados e dos Municípios. Paga e não recebe a devida contraprestação. Não recebe saúde, educação e segurança pública. Não recebe estradas, ferrovias, aeroportos. Não recebe sequer uma aposentadoria digna.
 
Para fazer frente ao “impostômetro”, os burocratas de Brasília criaram o “sonegômetro”. Realmente, a sonegação no Brasil deve ser muito acentuada. Também, pudera! Quanto maior é a carga tributária, maior será a sonegação. 
 
É de se estranhar que ninguém ainda tenha inventado um “corruptômetro”. Um “corruptômetro” bem regulado bateria facilmente as cifras do “impostômetro” e do “sonegômetro”, Mas, como medir a corrupção se ela é clandestina, subterrânea, ardilosa, sigilosa?
 
Ainda bem que o folclórico e honestíssimo Eduardo Brugin morreu antes. Morreu na incrível inocência de que os tributos por ele devidos e por ele rigorosamente pagos iriam ser exclusivamente aplicados no desenvolvimento da nação brasileira.
 
Chiachiri Filho, historiador, criador e diretor por oito anos do Arquivo Municipal e membro da Academia Francana de Letras

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