O Caminho da Fonte

Por: Jane Mahalem do Amaral

Fiquei pensando, insistentemente, nessa frase nos últimos dias do ano. Queria entender, na prática, como isso acontece. Quase sempre, nós cristãos, agradecemos as bênçãos que recebemos e pedimos aquilo que desejamos. Fazemos nossas preces e isso parece ficar separado em um compartimento especial onde só entramos em alguns momentos. Depois, fechamos essa porta, e vamos viver a vida bem esquecidos daquelas palavras repetidas em forma de oração. Quando algo estranho nos acontece, alegre ou triste, geralmente voltamos àquelas bonitas palavras, às vezes chorando, e pedindo ajuda, às vezes sorrindo e agradecendo. Penso que é isso que normalmente fazemos... Seria então esse pobre caminho a nos levar ao Grande Pai? O que quase sempre repetimos é percorrer trilhos viciados e nos apegar a catecismos estreitos... E ela, a Fonte? O que faz ela para se aproximar de nós? Essa era a pergunta que não parava de gritar na minha cabeça, procurando resposta. Sou eu uma pessoa tão alienada que não posso perceber isso? Fui para o silêncio e deixei esvaziar minhas tolas perguntas racionais. Acho que nesses momentos fico bem dividida entre o profano e o sagrado, e bem perdida no meio da tempestade mental que sacrifica o divino. À medida que silenciava minha mente, acalmava o incessante fluxo das ondas de pensamento, respirando profundamente no processo da meditação, comecei a vislumbrar o centro da pergunta e o cerne da resposta. Isso veio para mim em forma de imagens: uma bonita mesa posta para o jantar, família reunida, suposta alegria no ar. No entanto, uma palavra dura, mal colocada, desestabiliza todo aquele momento preparado com tanto carinho. O rancor antigo, guardado cuidadosamente, resolve se apresentar e abre feridas mal curadas, desajustando o ajustado. Onde estava ali, naquele momento, a consciência da grandeza daquilo que estava sendo oferecido pela vida: família, comida, teto, beleza, odores, sabores, relacionamentos...? Ir em direção à Fonte é perceber, com gratidão aquilo que é essencial. Tantas coisas para nos agradar e vamos justamente em direção contrária... “Essa vida é curta demais para ser pequena.”, ouvi de um filósofo. Somos mestres em apequenar nossas vidas. Preparamos a festa, cuidamos do sabor, escolhemos o melhor vinho e depois ficamos discutindo e nos irritando com a cor da toalha... Será que a Fonte, o grande Pai não se cansa dessa pequenez? Olhando por esse ângulo, podemos ver que a Fonte, realmente faz muito mais força para chegar mais perto, nos oferecendo o melhor... E, lá estamos nós, dando pontapés e ainda nos acreditando justos. Podemos pensar em outras cenas, além desse jantar... É fácil nos observar, atuando com a prepotência de quem sempre sabe o que faz e sabe o que diz. Podemos nos ouvir dizendo: “Eu agi assim porque ele mereceu”. E somos nós, sempre nós, os melhores juízes para julgar. 
 
O maior arquétipo de educador que já conhecemos, o poeta do Sermão da Montanha, já dizia: “Bem-aventurados os mansos pois eles herdarão a terra”.
 
Não, eu não quero mais um relacionamento medíocre com a Fonte, calcado apenas em palavras de reza que me foram ensinadas. Quero aprender o caminho da Fonte, reconhecendo em cada gesto, em cada som, em cada sabor, em cada pessoa e em cada momento, o empenho que a Vida faz para me abraçar carinhosamente. Acho que ainda dá tempo.
 
Jane Mahalem, escritora

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