Quando a modéstia vira pecado

Por: Luiz Cruz de Oliveira

Indiferentes à leréia da Praça Barão, o corretor Ronan e eu jogmos conversa fora. 
 
Depois de hora e meia, estamos satisfeitos e concordes, já descobrimos soluções para cada um dos problemas da saúde no país. Já relacionamos, também, os meios adequados para reconduzir o futebol francano à primeira divisão dos campeonatos paulista e brasileiro. Vamos atacar o problema das drogas no Brasil e no mundo, quando o telefone celular essa saúva moderna interrompe a conversa profícua.
 
Depois de dois minutos, ouvindo sem emitir palavra, o companheiro desliga o aparelho, com cara de quem comeu e não gostou.
 
- Era a Marisa. Estava nervosa. Escutou desaforo, descarregou em mim.
 
- Algum problema?
 
- Nada, nada. Coisa à-toa. Esqueci de pagar o aluguel do mês passado. Eu ando com a cabeça meio lerda.
 
- Deixa de ser modesto, Ronan. Bota lerdeza nisso. 
 
E fico pensando que, desde que o conheço, ele sempre se esquece de pagar as contas. Vai ter memória ruim assim não sei onde.
 
Voltamos, todavia, ao mundo real e, na hora seguinte, depois de transitarmos pela política de todas as esferas e pela seriedade das religiões, chegamos às virtudes do trabalho.
 
- Parece que, depois que inventaram o burro, você nunca mais fez força, nunca mais pegou no pesado...
 
- Que que é isso! Não fala uma coisa dessa. Dou um duro danado o ano inteiro pra vender um terreno, uma casa... Ninguém sabe o quanto é dura a vida de corretor. Agora, quando faço um negócio bom, tiro uma folguinha, saio da cidade, vou dar uma pescadinha.
 
- Folguinha, Ronan... Pescadinha... Deixa de ser modesto, bota folguinha nisso. Você vive sumido. A sua mulher Marisa até parece secretária eletrônica. A gente liga pra sua casa e ela já vai falando: “não tem ninguém não, o Ronan foi pescar”.
 
- Nossa, foi bom você ter falado nisso. Eu estava esquecendo... preciso comprar um telefone celular. Este aqui é do meu filho. Peguei emprestado. Você acredita que eu fui atravessar uma pinguela, e o meu telefone caiu lá no fundo do córrego? Eu já estava esquecendo... que cabeça lerda. Preciso ir. Amanhã a gente conversa mais.
 
O amigo se vai... mas, num passo tão lento que (desconfio) vai pegar a loja já fechada. Pode ser, também, que, até lá, já tenha esquecido para onde está indo e para quê.
 
Vai ser lerdo e modesto assim não sei onde!
 
Luiz Cruz de Oliveira, professor, escritor, membro da Academia Francana de Letras

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