Acesso proibido

Por: Maria Rita Liporoni Toledo

Um enorme e frio muro ocultou a vida que eu, visualmente, compartilhava com a moradora daquela casa simples, mas graciosa. Ao passar pela calçada, de longe se ouviam os latidos amistosos de seu cãozinho que saltitava espertamente quando percebia alguém. A casa era recuada, mostrando pequeno alpendre com um portãozinho de ferro. A visão do jardim era um bálsamo para os olhos: rosas, plantadas simetricamente, rubras, róseas e brancas. O cuidado esmerado não permitia uma folha seca sequer. O piso da garagem brilhava, sem um grão de poeira, assim como o carro, de uso restrito, sempre polido e encerado. Um som ameno, inspirador de sentimentos delicados, era ouvido brandamente do lado de fora. Pelas portas e janelas abertas entreviam-se móveis leves, mas adornados com gosto, enfeites elegantes, tudo arranjado com vida. Ao fundo, árvores grandes e frondosas revelavam um grande quintal. Tudo isso foi encoberto com a construção do muro acoplado a um pesado portão vedado, de metal, para dois carros.
 
Às vezes conversava com Dalva, moça gentil e falante. Era solteira, tinha lá uns quarenta anos, mas parecia mais jovem com sua voz meiga, olhos espertos rasgados e fartos cabelos. Preferia roupas discretas que, no entanto, não conseguiam disfarçar seu corpo modelado. Nos últimos anos recuperava-se da perda dos pais a quem dedicara sua juventude. Agora soube que vai se casar. O amor, há tanto tempo adiado, teve seu momento de consagração. Penso que o muro dará ao casal a privacidade necessária para os arroubos desta paixão iniciante. No recôndito do lar, sem que curiosos ou estranhos os espreitem, poderão trocar juras de amor, segredos e carinhos. Neste espaço íntimo e pessoal consolidarão as promessas que certamente fizeram. A casa se transformou num recanto único, refúgio da felicidade que não será observada pelo resto do mundo.
 
Sendo por uma boa causa vou me conformar com a visão de concreto que terei daqui para frente.
 
Maria Rita Liporoni Toledo, professora

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