Vivendo em tempos fluidos

Por: Sônia Machiavelli

Ainda não há um conceito definitivo para a expressão “pós-modernidade”, empregada muitas vezes de forma equivocada. Estamos no fulcro do processo e só o distanciamento histórico oferecerá condições de análise isenta e precisa. 
 
Talvez faça mais sentido o termo “modernidade líquida”, cunhado por Zigmunt Bauman, para definir as profundas modificações que se reconhecem em todas as esferas sociais desde os anos 50. Para o sociólogo polonês, nosso período representaria extensão, e não ruptura, do pensamento moderno. Que se registre a coerência de Zig, inspirando-se na frase célebre de Marx: “Tudo que era sólido, se desmancha no ar, tudo o que era sagrado é profanado...” Marx foi um dos três nomes fundamentais para a construção do pensamento pós-moderno. Os outros foram Freud e Nietszche. 
 
Para entender um pouco a fase histórica que protagonizamos, talvez seja oportuno retomar de vez em quando a ideia de modernidade, período em que o homem, pela via de correntes filosóficas que priorizaram a razão, foi colocado no centro do universo. Antes frágil criatura pecadora sujeita às leis teístas, com a ajuda de Descartes despe a casca medieva, aposta na inteligência e assume sua existência. A partir da Reforma e das mudanças econômicas do século XVII, que vão devagar mas inelutavelmente desaguar no Capitalismo, procurará criar espaço ideal, que a organização, a lógica e alguma previsibilidade tornarão ordenado. Nele pretenderá gozar daquela felicidade que, dizem alguns, também foi criação moderna. 
 
Durou pouco a ilusão, quer se considere como início da Era Moderna a queda de Constantinopla em 1453; a tomada da Bastilha em 1789; ou a mudança do modo de produção de feudal para capitalista no século XVII. 
 
O XX chegou com guerras, atrocidades, genocídio, tragédias ambientais, fracasso de ideologias, colapsos financeiros, tudo isso que colocou em xeque verdades até então inquestionáveis. A razão não necessariamente garantia o progresso e o bem estar. A descrença no mundo racional e ordenado acarretará em vários campos a diluição das certezas e conferirá novas facetas à economia, à política, à cultura, à educação, às ciências, à vida cotidiana, e, claro, às artes. Acrescente-se a este contexto mudanças extraordinárias no nível da comunicação, da reprodução de imagens e principalmente do consumo, e se chegará à orquestração de novas maneiras de existir e conviver. Essas nas quais nos movemos.
 
Oriundos do século passado, habitamos universo onde a informática e o ciberespaço reorganizaram a linguagem que de analógica passou a digital e globalizada. A comunicação é instantânea mas o conteúdo é supérfluo. Tempo e espaço se oferecem em fragmentos; a individualidade predomina sobre o coletivo; o convite ao consumo é cada vez mais aliciador. A ética do prazer, a que os gregos denominaram hedonismo, se sobrepõe a valores que pedem esforço e disciplina. Tudo é fluido, amorfo, indefinido, inconstante, marcado pelo efêmero. Nas relações humanas os vínculos se enfraquecem por causa de substituições e distanciamentos que não ensejam laços sólidos. 
 
Este é o panorama entrevisto da ponte. Se bom ou ruim, bonito ou feio, não vem ao caso para pensadores que parecem um tanto surpresos. A ponto de um deles, Michel Foucault, ter perguntado em uma de suas últimas palestras, seis meses antes de sua morte, em 1984: “O que estamos fazendo de nossas vidas?” Desde então, as mudanças se acentuaram, e ninguém soube dar uma resposta.
 
Sônia Machiavelli,  professora, jornalista, escritora

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