O apito do trem

Por: Everton de Paula

Não sei dizer com exatidão a data em que os trens pararam de passar em Franca, pela antiga estação da Mogiana. Lembro-me, apenas, de estar na plataforma, segurando com força a mão de meu pai, antes de entrar no vagão em direção a Campinas. A fumaça branca expelida por todos os poros da locomotiva, o vai-e-vem dos passageiros, capotes protetores contra as pequenas fagulhas que entravam pela janela e caíam no colo da gente, o vendedor de algodão doce, o sono de criança.
 
Mas me lembro, também, de quando as locomotivas a vapor foram sendo substituídas pelas de diesel. Aqui em Franca (talvez uns 40 mil habitantes na época), o comentário era geral: não se ouvia mais, pelos cantos da cidade, o apito do trem que foi se recuando para o passado. As locomotivas a diesel eram mais velozes e econômicas, mas não produziam vapor. Em vez do apito, a buzina pneumática.
 
É difícil descrever o som dessa buzina. Busco no mais fundo de minha memória a impressão que retive ao ouvi-la. Não era um assobio, balido, ganido, zurro, uivo nem guincho, mas uma combinação de todos esses sons. Havia quem o comparasse ao grito de uma coruja triste, traída e abandonada, chorando suas mágoas num galho; para outros, parecia o pio de um caburé desafinado. Seu inventor deve ter sido algum gênio surdo, que não sabia bem o que estava fazendo. Ah, certo, caburé é um tipo de coruja do mato.
 
Era isso: a buzina da locomotiva a diesel jogou para o lado o romântico apito de trem a vapor. 
 
O apito a vapor era grato aos ouvidos, especialmente à noite e à distância. Era um som cheio; e quando vinha de longe, pela noite afora, emprestava asas à imaginação e proporcionava viagens de sonho a cidades e terras desconhecidas. Com ele vinha uma sensação de segurança e de justeza das coisas. Por pequena e isolada que fosse a cidadezinha do interior, um pouquinho do mundo passava por ela; as fitas de aço que costuravam a unidade do estado, do país, ganhavam vida e vibração no silêncio da noite.
 
O apito do trem marcava as horas, e, às vezes, servia para encerrar o dia. Muitas famílias (a minha, eu me lembro disso) esperavam que o das 9 horas e 53 minutos apitasse na encruzilhada, e quando a última vibração dissolvia-se em silêncio, alguém começava a se despedir do vizinho ao lado, a fechar portas e janelas, a apagar luzes e todos iam dormir.
 
O antigo apito talvez avivasse a inquietação daqueles que se cansam de viver sempre entre as mesmas quatro paredes, mas trazia, também, a impressão de que tudo ia bem no mundo.
 
Everton de Paula, acadêmico e editor.  Escreve para o Comércio há 43 anos

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