História do Mundo sem as Partes Chatas

Por: Fábio Diegues

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“Leia não para contradizer nem para acreditar, mas para ponderar e considerar. Alguns livros são para serem degustados, outros para serem engolidos, e alguns poucos para serem mastigados e digeridos. A leitura torna o homem completo, as preleções dão a ele prontidão, e a escrita torna-o exato”, aconselhava Francis Bacon no século XVI. Os livros de história que lemos na escola geralmente pertencem à segunda e terceira categorias. Já História do Mundo Sem as Partes Chatas, lançamento da Editora Cultrix, pertence à primeira categoria. Ele chega às livrarias de todo o país mostrando que tudo o que provavelmente aprendemos na escola de forma maçante e tediosa pode ser divertido, engraçado e interessante, bastando apenas tirar as partes chatas. 
 
Entenda-se por partes chatas nomenclaturas. Com um texto recheado de ironias, sarcasmos e cheio de descontração, o historiador e escritor Dave Rear, professor universitário de história e inglês em Tóquio, apresenta em apenas dez capítulos a evolução da história do planeta Terra, seus personagens e seus ciclos. Tudo de forma leve, sem a rigidez acadêmica tão comum em muitos livros do gênero. E com pitadinhas de sarcasmo, é bom que se previna ao leitor.
 
Para Rear, o Big Bang seria “O Grande Climax”, fazendo alusão ao estado de êxtase que a explosão que originou o mundo deve ter causado. A obra é um grande tratado politicamente incorreto, recontando a nossa história com termos modernos e muita criatividade. E um exemplo ilustrativo é quando o autor cita o ranking dos dinossauros mais legais da história e os nomes malucos que os paleontólogos dão a “bichinhos” como Ultrassauro, Supersauro e Fabulomegaultrasupersauro. A verdade, que é a existência dos dinossauros, está ali; mas os nomes científicos dos gêneros e espécies, que sempre pegam os estudantes, são substituídos, visando a melhor entendimento e fixação. Assim, cada capítulo, dividido em partes para melhor compreensão, traz um resumo dos fatos relevantes que construíram a nossa civilização: do homem que sai da caverna ao que conquista o espaço. A odisseia humana traça sua linha no tempo, sob a ótica engraçada do autor. O humor presente na obra remete o leitor aos tradicionais filmes de Monty Python e ao programa americano Saturday Night Live. O hilário altissonante ganha aqui plasticidade. Há que se ter estilo para fazer o que faz Dave Rear sem recair no ridículo. É como se estivéssemos conversando numa mesa de bar, com jeito descontraído, colocando aqui e ali as piadas que fazemos coloquialmente, a partir de informações que têm fundamento. 
 
Com cuidadosa tradução, que pediu não só conhecimento mas também percepção e sensibilidade aos tradutores, a edição brasileira fixa as colocações do historiador, sem nunca perder o fio condutor da obra: o humor. A passagem que cita a Primeira Guerra Mundial é representativa desse minucioso trabalho. Rear, de forma ácida, nos diz que essa não foi a primeira vez que a Europa entrou em guerra contra si mesma. “Provavelmente (o autor coloca) foi desde o dia em que o homem de Cro-Magnon despertou e disse: ‘Esses neandertais estão realmente começando a me irritar’!
 
Alguns alvos acabam sendo os preferidos do autor, como a superioridade do Oriente frente ao Ocidente, em diversas fases da história; a eterna rixa entre ingleses e franceses e a ridicularizarão de ditadores e vilões. No caso de Napoleão, por exemplo, ele brinca dizendo que o imperador parou de crescer aos sete anos. E Hitler, a quem o autor chama de “Adolfinho, o Louco Monstruoso com um só Testículo”, tem um perfil totalmente inusitado aos padrões conhecidos. 
 
A América Latina aparece em momentos distintos da nossa história. Num deles, o autor lembra o ciclo de independências e, em outro, as diversas revoluções e ditaduras - inclusive a brasileira, quando aproveita o ensejo para ironizar a constante devastação da Amazônia: “Hoje o país é uma democracia amadurecida e fez grandes avanços nas esferas econômica e ambiental, livrando o mundo de vastas extensões da perigosa floresta amazônica que continham muitos insetos horripilantes”, relata nas páginas do livro.
 
É assim, fazendo piada num estilo que também lembra Woody Allen, que Dave Rear vem conquistando leitores, fazendo sucesso. O livro, lançado ano passado, tem vendas expressivas também nas plataformas virtuais. Nos EUA ( cuja cultura ele critica de fio a pavio), mantiveram-se na lista dos mais vendidos em 2012 e em alguns países europeus começa a aparecer no pacote de sugestões para leituras de fim de ano. Faz sentido enfrentar o inverno rigoroso aquecido pelo riso. Ainda mais quando a fórmula latina do “ridendo castigat mores” ganha coloração cítrica.
 
 
O ESCRITOR
 
Dave Rear 
 
É um sujeito engraçado. É a primeira coisa que nos ocorre quando lemos o perfil minimalista em sua home page. Nas poucas palavras que se dedica, já fica clara uma ideia de que é movido pelo humor. Formado em História pela Universidade de Cambridge, onde se especializou em Linguística, resolveu dar uma guinada na vida e foi para o Japão, “para estudar o projeto de educação japonesa”. Acabou ficando em Tóquio como professor universitário. Ali leciona inglês, história e ciências sociais. História do Mundo sem as Partes Chatas é seu primeiro livro. A leitura revela o vasto conhecimento da história universal detido pelo autor, em que pese o fato de ele nunca levar a sério o que aprendeu. De toda forma, oferece ao leitor um presente para quem ama história, pois seria impossível rir sem contexto. Mais ou menos como acontece ao processo de ouvir uma piada e reagir a ela. Por outro lado, passear pelas páginas que este escritor original assina, é aproveitar a oportunidade de fazer uma releitura sob ângulo diferente. É como se o autor estivesse narrando os fatos nos bastidores da história a bordo de uma máquina do tempo. História do Mundo Sem as Partes Chatas termina lembrando que existem muitas questões apocalípticas sem respostas, mesmo porque, “essas são perguntas que talvez somente Deus possa responder se conseguirmos convencê-lo a dar as caras por aqui”, finaliza.
 
A tradução de Cláudia e Eduardo Gerpe Duarte é excelente, sob o aspecto de que busca uma aproximação com nossa fala coloquial. A Cultrix, que traz o livro aos falantes do português do Brasil, integra o Grupo Editorial Pensamento, nascido em 1907 e reconhecido pelo pioneirismo e inovação na seleção de temas para publicação. Seu objetivo é lançar títulos voltados à área de ciências sociais e humanas, especialmente literatura, linguística, sociologia, psicologia, administração e marketing. (SM)
 
Fábio Diegues, jornalista

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