A velha moça que queria sair na foto

Por: Mirto Felipim

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Mais uma vez abriu o jornal na vã esperança de sempre, que sua foto com a “amiga” estivesse publicada na coluna da sociedade local. Mais uma vez, não estava.
 
Alimentou a esperança secretamente durante anos. Desde o dia em que na escola, menina desengonçada e sem graça que sempre fora, durante a festa das mães, algumas fotos de todos foram tiradas e ela só conseguira aparecer naquela coletiva, lá do lado, abraçada com sua mãe, é verdade, mas foto que somente ela e a família conseguiam distinguir. Enquanto isso, algumas poucas colegas tinham conseguido destaque em alguma coluna. Claro que ela, se bem que ainda em tenra idade, falou mal de todas.
 
Ah, como gostaria de ter sido uma delas!
 
Mas o tempo passou, e a vida, como sempre tem de ser, continuou. Já adolescente, procurava, sempre que podia, pois quase não era convidada, mais se convidava, sair com as amigas mais populares, sentar em lugares estratégicos, para, quem sabe, uma tarde naquela sorveteria, ou uma noite em um dos muitos barzinhos, ser fotografada e publicada, nem que fosse assim, meio de paisagem mesmo, para, enfim, comentar o fato como se fosse corriqueiro e, principalmente, ser comentada, pelo menos por um dia.
 
As amigas foram se arrumando na vida, afastando-se naturalmente dela, de quem nunca haviam se aproximado ou permitido sincera intimidade, casando-se, separando-se, tendo filhos, algumas, até mesmo, com cerimônias documentadas em revista especializada em frivolidades (glória total), além, é claro, de acontecerem nas colunas sociais. E ela sem receber aquele convite, tão certamente esperado, para o casamento, para a festa, a recepção, com direito à cobiçada foto com os noivos, insinuando intimidade.
 
Agora, ultrapassada com folga a casa balzaquiana e caminhando, parece que mais depressa do que todo mundo, para o outono implacável da idade, resta-lhe uma ou outra migalha de convite para sair à noite, com uma ou outra remanescente solitária como ela, que, para não ficar em casa ou não ter de sair sozinha, topa até convidá-la, mesmo porque, sua figura insignificante e desinteressante não colocaria em risco uma improvável conquista.
 
Noite dessas, em um estabelecimento da moda, “bem frequentado” pela nata da nata provinciana, por um breve momento a fagulha da esperança renasceu. Um antigo colega de escola, agora empresário conceituado, passou por sua mesa, quando ela e sua amiga, tão igualmente desinteressante, esperavam ser atendidas.
 
Naquele exato momento, quando o “amigo” as cumprimentava, um fotógrafo, escalado pelo titular de uma das cobiçadas colunas, diariamente por ela garimpada, convidou-o para uma foto. Sem hesitações, ele se colocou entre as duas, esboçando o veterano sorriso, enquanto o profissional disparava dois ou três flashes.
 
Conteve a histeria vitoriosa, enquanto o “íntimo” empresário se despedia e adentrava de vez o ambiente mais aconchegante da casa. Quase se levantou e foi perguntar ao fotógrafo quando seria a publicação. Mas não quis parecer desesperada para a amiga, que, também alvoraçada e com a mesma intenção, se conteve.
 
Acompanhou a página social nos dois dias seguintes, sem que nenhum sinal da foto aparecesse. Até que, na edição de domingo, lá estava o ex-colega, rodeado por duas garotas jovens e animadas, sentados à mesma mesa, no ambiente acolhedor do chique ambiente, sorrindo o sorriso juvenil e curtido da noite, para uma maldita lente, que teimava em, mais uma vez, rejeitá-la. 
 
Arrependeu-se de ter antecipado a história do encontro, exagerando a intimidade, é claro, para as colegas da clínica. Afundou-se no sofá, fechou os olhos, contendo o choro. Automaticamente desligou o celular, pegou a chave do carro, e, levantando-se, amargamente avisou a mãe de que estava indo para a feira comer pastel.
 
Mirto Felipin, poeta, escritor e observador

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