Vestibulares

Por: Chiachiri Filho

Um velho e bom amigo, diplomado em Escola de Ensino Superior, já aposentado, pai de família e avô de vários netos, apresentou-me, dias atrás, algumas reflexões sobre os exames vestibulares que aterrorizam a nossa mocidade no início de cada ano. Dizia-me ele que, se contasse ainda com seus 18 ou 19 anos e tivesse de enfrentar o massacrante exame de seleção, iria pensar com muito mais cuidado sobre a profissão a ser seguida. Eu não faria Medicina, afirmou. É um curso muito caro, muito demorado. Se eu aplicasse bem o dinheiro gasto durante os cinco anos de curso e mais uns dois de residência e outros tantos de especialização, teria um capital razoável e que me possibilitaria viver de juros ou outro tipo de negócio. Não optaria também pelo curso de Direito: os cinco anos da graduação poderiam perder o seu valor perante o rigoroso exame da Ordem dos Advogados do Brasil. Professor?! Deus me livre e guarde: os minguados salários não dariam para pagar o psicoterapeuta.
 
Haveria várias outras opções como, por exemplo, Engenharia, Publicidade, Economia, Informática, Turismo, etc., etc. Porém, todas exigem os malditos exames vestibulares e, depois de formado, o mercado de trabalho é limitado ou os proventos são diminutos. 
 
Dada a sua formação humanística e a sua preocupação social, sugeri-lhe, como profissão a Política, pois para se tornar um político não há a necessidade de um apavorante vestibular e muito menos de um suado diploma.
 
Meu velho e bom amigo, após meditar um pouco, disse-me que a carreira já foi promissora. Contudo, depois dos mensalões, das passeatas e da fiscalização do Ministério Público, a Política não tem mais aquele “glamour”, aquela segurança e impunidade.
 
Então, perguntei-lhe:
 
- Qual a carreira que mais lhe agradaria?
 
Meu velho e bom amigo respondeu-me sem pestanejar que, se lhe fosse dado voltar atrás em sua vida profissional, ele seria um pastor ou um sindicalista. Como pastor, ele apascentaria o rebanho e cobraria os dízimos. Como sindicalista, ele defenderia o povo ou, pelo menos, parte do povo, comodamente entrincheirado num cargo quase vitalício e, se não fosse tentado a se tornar um Presidente da República, estaria livre de tantos inquéritos, processos, sequestro, cassações e congelamento de bens.
 
 
Chiachiri Filho, historiador, criador, diretor por oito anos do Arquivo Municipal e membro da Academia Francana de Letras

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