Inocência e ignorância

Por: Maria Luiza Salomão

“...o que pode haver de mais misterioso do que uma antipatia espontânea e profunda como a que em certos mortais é despertada pelo simples aspecto de outro mortal, por mais inocente que este seja, e isso quando não é atiçada por essa mesma inocência?” 

Billy Budd
 
H. Melville. 
 
 
Assisti à ópera Billy Budd, no Rio de Janeiro, composição de Benjamin Britten, baseada na obra de Herman Melville, autor de Moby Dick. Somente homens, no palco-navio Belipotente . Billy Budd é o protagonista-título da obra de Melville, o “Belo Marujo”, e é invejado por Claggart, o mestre dºarmas, o “chefe de polícia” do navio, responsável por manter a ordem. Claggart é descrito, no livro:
 
“...buscando consumar propósitos cuja atrocidade desregrada pareceria ter muito de insana, ela agirá com base em raciocínios friamente sagazes e criteriosos”. (...) “sua loucura não é perene e sim intermitente, vindo à tona apenas quando provocada por algum objeto especial. E essa demência permanece secretamente protegida, o que vale quase dizer que se contém, de modo que (...) não parece diferenciar-se, para as mentes medianas, do juízo perfeito (...)”. 
 
Parece a descrição de um psicanalista contemporâneo. 
 
Billy Budd é descrito como um tipo carismático, incapaz de maliciar, de “antenar” as ciladas sutis de Claggart, armadas para desgraçá-lo. Querido por todos, que o chamam de Baby Budd, é um inocente, que não crê na inveja que desperta em Claggart, ou na admiração dos companheiros e do honrado Capitão Vere do navio. O Capitão é um “Pôncio Pilatos” no drama em que participará. 
 
Melville situa Claggart: 
 
“a perversidade mais refinada costuma agir com prudência incomum, pois tem tudo a esconder.” (...)“ a retaliação tende a ocorrer em monstruosa desproporção com a suposta ofensa; afinal, quando terá sido a vingança, com suas exações, outra coisa que não uma usura imoderada?” 
 
Diz-se que o vingador e sua vítima têm o mesmo destino. Vingar-se tem pouco a ver com justiça. Não há como medir sentimentos na base do olho por olho, dente por dente. O inefável não se dá a perceber em quilos e em metros; o que gera a ofensa, que dispara a vingança, pode ser sutil, nebuloso, bizarro. O vingador, odiento, tem pétrea convicção do seu julgamento. Como interromper o que se multiplica surdamente, na noite negra de um coração envenenado? 
 
O crime de Billy Budd é o da inocente ignorância. Diz o narrador: “a inocência mais ou menos míngua conforme cresce a inteligência”. 
 
Talvez a malícia seja inteligível modulador, mediador entre inocência e sabedoria; uma defesa para o mal não detectável pela razão ou pela ignorante inocência; uma antena atilada que informa fatos da vida psíquica à “candura” frouxa, inábil aos muitos perigos dessa vida. Mas é preciso escapar ao abismo do cinismo. A argúcia é olho vivo que não elimina o mal, mas previne auto-enganos suicidas. 
 
Suprema arte: a bondade buliçosa, serelepe, inquieta. 
 
Maria Luiza Salomão, psicóloga, psicanalista, autora de  A alegria possível (2010)
 

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