Adeus, Unifran

Por: Everton de Paula

Fui contratado pela Unifran em março de 1981. Trinta e dois anos durante os quais pude desenvolver, com todas minhas energias intelectuais e físicas, projetos, programas, aulas, avaliações institucionais no cenário acadêmico. Iniciei como professor universitário. Logo fui elevado à coordenação do curso de Letras. Honraram-me com o convite de pertencer à equipe que transformaria a União das Faculdades Francanas em Universidade de Franca, após o que me nomearam pró-reitor de ensino, pesquisa e extensão. Essas três funções desmembraram-se e novos titulares assumiram suas coordenações. Coube-me a de ensino de graduação, não sem antes reimplantar os cursos de pós-graduação lato sensu e iniciar as reuniões pedagógicas com os coordenadores de curso. 
 
Foi pela Unifran que fundamos a Academia Francana de Letras.
 
Em 2000, concluí meu mestrado para iniciar, na Unesp, o programa de doutorado.
 
Concluídas as diretrizes educacionais para mais de dez anos – Plano de Desenvolvimento Institucional ((PDI) –, conduziram-me à diretoria de publicações, como editor-chefe da Editora Unifran. 
 
Uma última contribuição na parte acadêmica: reuni, sob a coordenação de Apparecido Augusto Machado, as lojas maçônicas de Franca e obtivemos êxito junto ao então ministro da Educação Fernando Haddad, para assinatura final de autorização do funcionamento da Faculdade de Medicina. Era o último lance acadêmico, sem que soubéssemos. A Medicina da Unifran tem muito a ver com a maçonaria francana.
 
Em meados do ano passado, o grupo educacional Cruzeiro do Sul, de São Paulo, tornou-se a nova mantenedora da Unifran, saindo de cena as famílias de Clovis Ludovice e Abib Salim Cury. Lembro-me claramente da reunião havida no teatro “Bonaventura Cariolato” entre essas duas famílias e os novos proprietários. Os funcionários estavam apreensivos diante da inusitada situação. Mas logo se tranquilizariam quando o novo proprietário disse literalmente “Não se preocupem! A Cruzeiro do Sul firma hoje o cumprimento de não demitir nenhum funcionário, pois vocês é que construíram a parte física e a inteligência da Unifran! Queremos vocês conosco! Vocês são a garantia de continuarmos sendo a 10ª melhor universidade particular do país!”
 
Acreditei! Acreditamos!
 
Na manhã de 10 de dezembro de 2013, fui chamado à sala da nova reitora. Recebeu-me cordialmente. Fez-me sentar a sua frente. Entregou-me uma folha com pequeno texto intitulado “Aviso Prévio”. Eu estava sumariamente demitido, sem saber o motivo, os critérios e o que fazer a partir daquele momento. Eu não soube onde havia errado para ser demitido junto com 224 funcionários.
 
Primeiro o susto!
 
Depois a indignação!
 
Por fim, o raciocínio lógico, sensato, calmo, graças aos céus: novos tempos, novos donos; podiam fazer o que quisessem com sua propriedade.
 
A Cruzeiro do Sul agiu acertadamente: quis implantar o “modo Cruzeiro do Sul” de atender alunos e de ensinar em nível superior.
 
Não mais pertenço ao quadro de colaboradores da Unifran. 
 
Então, é tempo de agradecer pelo que me aconteceu antes da vinda da Cruzeiro do Sul.
 
Agradecer pelo excelente ambiente de trabalho que ali nos proporcionaram e que sustentaram por mais de duas décadas. Agradecer pela formatura de minhas quatro filhas naquela IES. Agradecer as amizades leais, sinceras, tão necessárias quanto as de Clovis Ludovice, José da Silveira Maia, Vicente de Paula Silveira, Ana Rita de Andrade Pucci... Agradecer pelo fato de ter sido a Unifran fonte principal de renda que ajudou a construir parte de meu modesto, mas seguro patrimônio. Agradecer, enfim, de ter podido nutrir-me das mais ricas experiências administrativas no cenário da educação de nível superior.
 
Agora, como cidadão francano, que se orgulha da Universidade de Franca como uma grata conquista da nossa terra, resta desejar à Cruzeiro do Sul toda a sorte possível como nova mantenedora da Unifran, no sentido de oferecer aos alunos de Franca, da região e outros advindos das mais diversas partes do país, um ensino de qualidade. Que haja um compromisso digno e humano com os funcionários que lá ficaram, um compromisso com a formação de nossos alunos, tornando-os profissionais capazes e pessoas éticas como ético deve ser o próprio procedimento da nova direção. Passamos-lhes uma universidade de respeito. Trabalhem com afinco para a sustentabilidade desse respeito. É o mínimo que se espera.
 
Adeus, Unifran!
 
P.S.: acabo de escrever este texto às 6h40 do dia 24 de janeiro, sexta-feira. Ouço o entregador de jornais. Apanho o Comércio da Franca. Folheio as páginas do caderno Local. Leio com tristeza matéria intitulada “Caos na Unifran”. Mais tarde, fico sabendo dos desmandos no setor administrativo e acadêmico, em detrimento do ensino e do atendimento aos alunos. Será verdade?
 
Everton de Paula, acadêmico e editor.  Escreve para o Comércio há 43 anos
 

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