Retorno às trevas

Por: Jorge Damante

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Foram seis anos e três meses cumprindo pena no regime fechado.
 
Abrigado agora na casa da mãe, recebia o carinho materno e tomava refeições em que o tempero mais saboroso era depositado no alimento em forma fluídica: o amor. E, para completar a sensação de paz, uma chuvinha serena insistia em cair noite adentro, revelando-lhe verdades que nunca houvera tido tempo para recolher em sua breve e conturbada existência.
 
Nada obstante a paz interior, encontrava-se ansioso naquela noite, pois, no dia seguinte, começaria a trabalhar como entregador em mercado de velho amigo e conhecido da mãe, que, a pedido desta, aceitou dar-lhe a oportunidade de que tanto necessitava, acreditando em sua determinação em deixar o mundo tenebroso do crime e das drogas.
 
Foi muito bem no trabalho. No décimo dia, compareceu à casa de senhora muito distinta para entregar uma carga de gás, sendo que, ao chegar no local, a madame, que estava no interior da residência, orientou-o a deixar o botijão na despensa, ao lado da cozinha, informando-lhe que depois passaria no mercado para fazer o acerto da conta com o seu patrão.
 
No dia seguinte, pela manhã, quando o rapaz se preparava para a primeira entrega do dia, chegou ao mercado a madame, acompanhada de policiais, dizendo que queria falar com o proprietário e com o novo entregador. Prontamente, os dois se fizeram presentes e iniciou-se o áspero diálogo.
 
- Moço, quero que me dê conta do celular que você pegou sobre a mesa da cozinha ontem, sentenciou a mulher, dirigindo-se ao ex-reeducando.
 
- Mas, senhora, não me acuse assim, não peguei o celular da senhora.
 
- Pra delegacia ladrão safado, dez dias longe da cadeia é muito tempo né vagabundo? Ordenou um policial.
 
- Mas...
 
De nada adiantaram os “mas”, as súplicas, as explicações e as negativas do rapaz. Foi conduzido com brutalidade à Delegacia de Polícia, onde foi muito humilhado por um policial civil que se achava a Têmis do terceiro milênio, que não titubeou em continuar a proferir impropérios contra o “suspeito” e a acusá-lo do furto do celular da distinta senhora de sociedade.
 
Considerando, porém, a ausência de flagrante delito, o jovem foi liberado.
 
Cabisbaixo, saiu caminhando pelas ruas e voltou ao mercado, para retomar suas obrigações. Ao adentrar o local de trabalho, o patrão veio lhe informar a imediata demissão, pois não queria saber de dar guarida a ladrão em seu negócio e nem tampouco queria que seu comércio se transformasse em ponto de parada de polícia, pois isso acabaria com sua freguesia.
 
Profundamente humilhado e com a cabeça dando voltas, saiu do mercado e dirigiu-se a conhecido ponto de tráfico e consumo de crack, a cracolândia da cidade, local onde, após encontrar antigo companheiro de vício e dar a primeira cachimbada, voltou a chafurdar na lama do vício, regozijando-se por ter regressado àquele inferno de almas perturbadas.
 
Passou, com efeito, três dias enfurnado naquele submundo, consumindo crack, maconha, álcool, cocaína, o diabo, pelo que estava agora outra vez reduzido à indigna condição de bicho, capaz sabe-se lá do quê para extravasar toda a revolta que sentia desse mundo de humanos certinhos e cristãos, que se recusam, no entanto, a cumprir a máxima de amor do Cristo.
 
Ao final do terceiro dia precisava de dinheiro para continuar sua saga na cracolândia. Convidou, então, antigo parceiro daquele lamaçal humano para assaltar o mercado do homem que o mandara embora do emprego sem ao menos ouvir suas razões. Seria fácil, bastaria chegar e apontar o três oitão que o velho entregaria toda a grana.
 
Adentraram o mercado ao final do expediente, hora boa para pegar a féria do dia. Ele mesmo empunhava a arma. O combinado era de ele anunciar o assalto, enquanto o comparsa faria o limpa no caixa. Assim foi feito. Porém, o proprietário reagiu e tentou tomar o revólver, momento em que, durante a disputa, a arma disparou e acertou uma senhora que estava dentro do comércio.
 
Ao ver que uma pessoa tinha sido atingida, o rapaz recobrou parcial lucidez. É certo que já tinha cometido outros assaltos, mas nunca havia matado alguém. Não era autor de latrocínio. Em fração de segundos, sua consciência o impeliu a dirigir-se até aquela inocente vítima e qual não foi sua surpresa ao verificar que havia atingido com um tiro a sua mãe querida.
 
Suspirando, sua mãe fitou-o no fundo do olho e disse: Por que isso meu filho?
 
Dias depois, a madame compareceu à Delegacia de Polícia para informar que o celular estava, em verdade, guardado numa gaveta em armário da cozinha e ela o achou, pedindo, portanto, para retirar a queixa de furto feito em face do ex-presidiário, que, a essa altura, já estava novamente preso, pela prática do crime de latrocínio.
 
Jorge Damante, licenciado em História e bacharel em Direito 

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