Luziinha

Por: Lúcia Helena Maniglia Brigagão

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Mineira, Vovó Yi, tinha todos esses netos. Luziinha, a mais velha, à sua direita, revelou-se cedo a mais brilhante deles. Pouca escolaridade e sem nunca ter aprendido formal ou informalmente, falava línguas estrangeiras com fluência, fazia cálculos matemáticos elaborados. Estranhíssimo. Casal carioca e ligado à família, durante visita pediu para levar Luziinha, prometendo estudos e cuidados. Deixaram. Calada, ressabiada e humilde, ela foi.  Meses sem notícias. A carta chegou quando o desespero batia e não trouxe alento: ela saíra e não retornara. Desaparecera. Foi encontrada em algum lugar no meio do caminho entre Rio e Belo Horizonte, descompensada. Resgatada, em algumas poucas épocas era dócil e meiga; em outras, agressiva e perigosa: era quando literalmente a enjaulavam no cômodo no fundo da casa, especialmente construído. Luziinha ficava ali por semanas, nua e aos gritos. Higienizavam-na, concomitante ao espaço onde ficava, com borracha de jardim.  Dormia no chão, era alimentada por comida passada pelo vão da porta. Em crise, perdia as mais básicas características humanas. Nunca mais falou: antes grunhia e rezingava. O que aconteceu com ela, é um mistério. Ainda hoje, mais de meio século depois.  
 
(Lúcia H. M. Brigagão)

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