Ônibus de Fogo

Por: Chiachiri Filho

Certamente o prezado leitor não desconhece as expressões e os sentidos de:
 
‘Ele é fogo.
É fogo no boné do guarda.
Fogo de palha.
Fogo na canjica.
Fogo no rabo.
Fogo de morro acima e água de morro abaixo...”
 
Existem ainda várias frases em que se utiliza o termo “fogo”. Uma das mais atuais é “fogo nos ônibus”. Fogo nos ônibus, na realidade, é muito mais do que uma expressão: é uma prática rotineira nas ruas e logradouros de nosso país. Por qualquer insatisfação popular, são os ônibus (e não só o Corinthians !) que pagam o pato. Se um marginal é morto ou perseguido pela polícia, lá vem um grupo de adolescentes incendiários botando fogo nos veículos de transporte coletivo. O motorista e o cobrador são rendidos, o carro evacuado e os piromaníacos espalham a gasolina e ateiam o fogo. Nem sempre a evacuação é completa e, assim, alguns passageiros acabam virando churrasquinhos. Os ônibus em chamas viraram o símbolo visível do protesto, da insatisfação, da revolta, da crueldade.
 
Sem dúvida, vivemos uma espécie de guerra civil. Uma guerra de guerrilhas muito pior do que aquela vivida às margens do Araguaia. De um lado, postam-se os bandidos e, de outro, os ‘policiais.’ Toda e qualquer ação da polícia é punida pelos atos de vandalismo de adolescentes comandados pelos chefões do crime. Quando não, pelos seus próprios comandantes na tentativa de reprimir as ações exageradas e violentas.
 
Esperamos que a vitória final seja dos homens da lei e da ordem. Mas, será que essa guerra terá mesmo um fim?Ao que parece, essa é uma guerra prolongada, interminável, covarde e violenta. A cada ação da polícia, segue-se a represália dos delinqüentes. A polícia não consegue prever ou prevenir os atos criminosos. Ela sempre chega depois: depois do roubo, depois do assassinato, depois do ônibus queimado. Por tudo isso, hoje, ao invés da sonoridade das carruagens de fogo, temos o terror dos ônibus de fogo iluminando as escuras e obscuras ruas do Brasil.
 
Chiachiri Filho, historiador, criador, diretor por oito anos do Arquivo Municipal e membro da Academia Francana de Letras

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